O CAMPEÃO VOLTOU

 O Corinthians ganhou o campeonato brasileiro de 2011 e na sequência ganhou a Libertadores, em julho de 2012. Aconteceu, porém, que, talvez por ressaca, o time não ia bem no segundo semestre do ano passado, durante o Campeonato Brasileiro. A torcida andava desconfiada, mas a cada sequência de boas partidas, a torcida empolgada gritava nas arquibancadas: “O Campeão voltou!” E esse incentivo levou o time à glória máxima do título mundial.

 Não sou corintiano e estou transgredindo meu estatuto particular de torcedor, segundo o qual eu jamais deveria escrever Corinthians em qualquer folha de papel. Mas tenho esperança de ser perdoado porque na vida há lições acima das paixões.

 A maioria de nós não é campeã de nada. Vivemos uma vida simples, trabalhamos em empregos simples, falamos palavras simples, escrevemos crônicas modestas e todo o extraordinário de nossas vidas vem dessas coisas singelas. Nossas vitórias sao arrancadas com muito sacrifício dessa rotina humilde e pouca comemoração fazemos por elas.  Acontece que sempre há entre nós quem faça certas coisas com muita habilidade e dedicação, mas por alguma razão que não compreendemos deixou de praticar essa habilidade e esse modo de viver.

 Sempre haverá entre nós quem gostava de tocar violão, mas por algum motivo guardou o instrumento no fundo do armário e nunca mais encostou o dedo numa corda. Há quem fosse um grande mestre-cuca e todo domingo se encarregava do almoço em casa, mas perdeu a vontade de cozinhar e agora se vira com um sanduiche qualquer. Há quem tivesse o mais lindo jardim da cidade na frente de casa, mas aborreceu-se com alguma coisa e nunca mais foi visto revirando a terra dos canteiros ou podando os arbustos já crescidos.  Há quem ia à igreja todo domingo, mas de repente se isolou sem motivo aparente. Há quem gostasse de jogar baralho, mas nunca mais foi visto na mesa entre os amigos. Quem praticasse esporte, meramente por lazer, mas uma lesão o retirou das quadras ou das pistas. Há quem desenvolvesse seu trabalho com alegria e competência e animava a todos ao redor, mas por alguma injustiça perdeu o entusiasmo, tornando-se um operário revoltado. Há um bom aluno que por uma desilusão qualquer deixou de estudar e se tornou mediano.

 Então, certa noite a gente dorme pensando nas coisas que deixou de fazer e na manhã seguinte acorda com vontade de recomeçar. Comenta com as pessoas mais próximas e elas sorriem porque há muito esperavam que você voltasse. Entao você se olha no espelho, cerra os punhos e comemora essa vitória sobre si mesmo, sobre seus medos, suas tristezas e seus rancores. E sente o coração vibrar como se dentro do seu peito um coro de milhares de torcedores gritasse aplaudindo: O campeão voltou!

Angelo Humberto Anccilotto (Abr/2013)