O OUTRO EU

Somos mais de sete bilhões de pessoas neste planeta. Mas acho que o censo correto seria mais de quatorze bilhões porque cada indivíduo carrega dentro si outra pessoa. Você mora num determinado lugar, numa casa razoável, mas o outro que você arrasta dentro de si está sempre querendo se mudar. O trabalho que você faz vai bem, pagam-lhe razoavelmente bem por ele, mas toda a manhã, enquanto você abotoa a camisa e calça os sapatos, a voz do outro murmura lá dentro que você precisa arrumar outro emprego, que este já não dá mais.

Confesso que não sei se isso realmente ocorre com todo mundo ou se apenas generalizo minhas perturbações íntimas. O que sei é que meu outro eu é meu carrasco. Se acordo cedo, ele lamenta a hora de sono perdida. Se durmo até tarde ele acha que deixei de aproveitar o dia.  Se corto o cabelo, ele reclama, diz que do outro jeito estava melhor. Se deixo a barba crescer ele diz que envelheço e se vou ao barbeiro limpar o rosto ele me acusa de falta de criatividade, de ser uma pessoa incapaz de mudar sequer a própria cara. Se vejo jogo na televisão ele resmunga que tem um bom filme noutro canal, se troco o canal ele me censura dizendo que seria melhor ler um livro, e se pego o livro ele reclama que não saio de casa.    

O leitor mais afobado pode achar que se trata de dupla personalidade, mas lhes asseguro que não é. Aos trancos e barrancos ainda dou conta dos meus atos e, mesmo dividido, continuo sendo único.  Trata-se apenas uma voz interior que nunca está satisfeita com o que faço. Na reunião de condomínio, se me calo ele me acusa de medroso, se reclamo ele diz que minha queixa é bobagem.  Se vou à praia, ele caçoa das minhas queimaduras, se não vou ele critica minha pele branca e desbotada.

O outro eu é um ser intolerável que habita em nós, mas não se parece conosco. É o oposto. Às vezes tão corajoso diante da nossa fraqueza que chega a causar inveja, e às vezes tão prudente no meio da nossa coragem que chegamos desprezá-lo. Mas ele também tem lá os seus vacilos e indecisões. No meio de um churrasco me chama a atenção para o excesso de gordura e sal, e minutos depois volta atrás e diz que o bom da vida é viver cada momento sem preocupação e, se for com carne e cerveja, melhor ainda.

Poderia ser meu amigo e conselheiro, a voz da consciência em muitas situações, mas o meu outro eu definitivamente não é assim. Se alguém ainda lembrar, ele é como aquele personagem que aparecia no final do programa Viva o Gordo do Jô Soares, o Zezinho – ranzinza, crítico ao extremo, querendo sempre aquilo que está fora do script. Agora mesmo quando dou por encerrada esta crônica e me levanto satisfeito pensando em tomar um chope na praia para comemorar, ele resmunga que não ficou boa. Argumento que não é das melhores que já fiz, mas está bem estruturada e o tema é interessante. Ele acha que ficou uma porcaria e que eu não devia enviá-la para o Jornal. Então, para não sair no braço com ele, o que seria o mesmo que sair no braço comigo mesmo, proponho-lhe uma trégua dizendo que esta semana vai esta, do jeito que está, e que a semana que vem tentarei fazer uma melhor. 

Tenho certeza que ele vai me cobrar isso. 

Ângelo Humberto Anccilotto (Set/2015)