O SILÊNCIO DOS NOSSOS DIAS

Hoje em dia as coisas funcionam assim:

Tenho um compromisso às oito da manhã, num lugar longe de casa, onde nunca fui e não sei direito o caminho. Para não correr riscos, levanto bem cedo e saio sem tomar café. Chegando lá, conferindo o endereço e me certificando de que ainda disponho de tempo, vou a uma lanchonete comer alguma coisa. Eu, que já não sou tão moço assim, que acordei cedo e que viajei em pé no ônibus e no metrô, gostaria muito de tomar um café sentado no balcão. Mas a lanchonete tem poucos bancos e todos estão ocupados. Percebo então que um jovem acaba de comer seu pão de queijo e beber o último gole de café de seu copo. Espero ansioso que ele se levante e vá ao caixa pagar a conta, com o que, eu então poderia me sentar. Mas finda a sua pequena refeição o rapaz não dá sinal de sair do banco. Saca seu smartfone e começa a navegar na internet.  Eu bebo meu café em pé mesmo, pago a conta e saio antes dele, que continua a sua navegação pelo mundo virtual.

Inscrevo-me num curso de 30 horas para a melhora do currículo e compareço à primeira aula encontrando outros trinta e tantos alunos que também se inscreveram. Nenhum de nós conhece o outro, apenas o professor pede que nos apresentemos rapidamente falando nosso nome e nossa profissão, coisa que, certamente não recordaremos mais nos próximos quinze minutos. Então espero o intervalo das aulas para, com minha notória timidez, puxar conversa com o colega do lado. Mas assim que o professor comunica a pausa de meia hora, todos sacam seus aparelhinhos e mergulham na internet. Uns consultam o índice Bovespa, outros leem mensagens do chefe, outros vão para o twitter, outros procuram coisas no Google. Eu, que não carrego aparelho algum comigo, olho para as paredes e depois de constatar que elas estão precisando de pintura, me aproximo do professor na esperança de discutir o tema da aula, mas ele está conferindo a agenda eletrônica no celular. Disfarço e vou ao banheiro.

Passo na frente de uma escola onde da grade se vê que lá no pátio está acontecendo uma celebração qualquer dos alunos, algo que poderia ser uma comemoração do Dia das Crianças. Ouve-se uma música infantil que vem da modesta caixa de som instalada na parede e no pequeno palco as crianças dançam sob orientação das professoras. Há uma plateia de mães e pais sentada nas cadeiras na frente do palco para assistir à apresentação dos filhos, mas não sei por que cargas d’águas quase todos da plateia estão cabisbaixos, como se o show do palco não interessasse, e procuram coisa melhor no facebook, pelo celular.

Vou a um restaurante à noite e aprecio minha massa e meu vinho e a bela mulher que está sentada ao lado do marido, na mesa em frente.  Sou uma pessoa romântica e sonhadora e fico imaginando que se o homem precisar sair da mesa por um momento, talvez ela olhe em volta e, ao me ver ali, mantenha por um instante mais prolongado o seu olhar na minha direção.  E acontece de o marido se levantar, mas antes que minha esperança me agite o coração, ela mexe da bolsa, retira seu aparelho e inicia a sua comunicação em mensagens com o mundo externo. Retorno à minha massa, ao meu vinho e à minha insignificância. Vivemos um tempo de silêncio em plena era da comunicação.

 

Ângelo Humberto Anccilotto (Out/2014)