HOBBIT, O ENCONTRO

Passarinho, para quê vieste na minha janela meter o nariz? Se foi por um verso não sou mais poeta, ando tão feliz!  Se foi por uma prosa... bem, se foi por uma prosa, vamos lá...

Há certos momentos na vida em que todo o arsenal de que dispomos para lutar por ela são as nossas pernas e os nossos braços. Como um náufrago, por exemplo, que tudo o que pode fazer é nadar infinitamente no oceano ou movimentar as mãos sobre a cabeça, acenando desesperadamente a algum barco que passa a léguas dali. Nesse caso, nem braços ele tinha, no lugar deles despontavam duas asinhas ainda em formação. Restavam-lhe as duas pernas e elas o salvaram. Pelo menos até agora.

Chegou a ser confundido com um bichinho minúsculo (um rato?) se mexendo entre as pedras. Laura não soube identificar, à primeira vista, mas depois gritou: “É um passarinho!” Era. E recém-nascido. Recém-nascido no caso dele significava horas de vida; não tinha um dia sequer. Como chegou ao quintal é um mistério. As árvores mais próximas estavam a trinta metros dali, se tivesse sido arremessado de lá pelo vento, teria morrido. Pássaros não carregam os filhotes no bico, para o caso de alguém imaginar que ele tenha caído no transporte. A única hipótese possível é que tenha de alguma forma se grudado às penas da mãe e quando esta saiu para buscar comida ele tenha sido arrastado junto e depois viera a se desprender e ficar ali. Seu ínfimo movimento, mais de pescoço do que de pernas, foi o suficiente para ser descoberto. Recolhemo-lo do chão e passamos a ter na mão não um filhote de pássaro, mas um grande problema.

Sou uma pessoa da roça, já vi muitos filhotes de passarinho, mas confesso que assim, a poucas horas de nascido, jamais tinha visto. E a visão não é das mais agradáveis. Um filhote de pássaro que acaba de nascer não tem pena, tem duas bolinhas pretas no lugar dos olhos que mais tarde se abrirão, e um bico tão largo que dá a impressão de que todos os passarinhos recém-nascidos são filhos de pato. Mede cerca de cinco centímetros, dois deles só de pescoço. E piam.

Se eu disser que o recolhi para dentro de casa e comecei a cuidar dele, muitos acharão que fiz errado. O certo seria ligar para a Polícia Ambiental e entregá-lo à autoridade competente. Tudo o que fazemos hoje em dia é errado. Parece que a Era do Conhecimento nos arremessou diretamente para a Era do Não. Não temos competência para mais nada, nem mesmo para cuidar de um  filhote de passarinho que caiu no quintal. Mas mesmo assim o recolhi e a primeira providência foi aquecê-lo, já que o dia era chuvoso e ele estava visivelmente frio. Sem penas, parecia a miniatura de um frango resfriado, desses que a gente compra no supermercado. Colocá-lo numa caixa de papelão sobre uma lâmpada acesa deixou-o mais confortável.

A segunda providência seria alimentá-lo, mas, talvez vocês não acreditem, um pássaro de um dia de vida, longe dos pais, a gente não consegue distinguir a que espécie pertence. O que ele come? O instinto mamífero do ser humano chegou a se impor e pensei em dar leite à ave.  Seria uma judiação. Imaginem mais tarde um passarinho adolescente voando entre os colegas: “Esse ai tomou leite quando era pequeno!” – caçoariam dele e lhe dariam bicadas de provocação. Seria bullyng dos mais terríveis. Lembrei-me de que tinha fubá em casa e fubá toda ave pequena come. Os fãs de Carmem Miranda, se é que ainda existe algum, sabem disso há mais de setenta anos, quando tamborilavam os dedos ciscando sobre a mesa, imitando um Tico-Tico No Fubá. Seria um tico-tico? Um pardal? Um canarinho?  Uma corruíra? Fosse o que fosse, haveria de gostar de fubá. Misturado com água, virou um mingauzinho e foi colocado em seu bico lentamente com uma seringa.

Sem penas, pele do corpo transparente, era possível ver o alimento descendo pelo esôfago e se alojar no estomago que, com dois ou três movimentos de  ingestão, virou uma bolinha de mingau.  Assim se deu no primeiro dia. No segundo dia ele acordou triste, um pouco enfraquecido. Não havia muito espaço para enfraquecer, já que era frágil demais e concluímos que era necessário melhorar a “incubadora”, que continuou sendo uma caixa de papel forrada de algodão e tecidos quentes, só que agora aquecida suplementarmente não mais por uma lâmpada, mas por um aquecedor elétrico que temos em casa.

Funcionou. Ele está mais forte, continua se alimentando bem e pia bastante dentro de casa. Ele foi recolhido na terça-feira, hoje é domingo e conseguimos mantê-lo vivo nesses cinco dias que se passaram. Mas vou ser obrigado a encerrar a crônica sem ter encerrado essa aventura. Como não sei no que essa história vai dar, peço a vossa permissão para continuar na semana que vem e relatar o que aconteceu nos próximos sete dias.

PS: Por ser tão miúdo, demos-lhe o nome de Hobbit, o pequeno herói do cinema que batalha contra os cinco exércitos.

 

HOBBIT, A COMPANHIA

Semana passada contei como um filhote de passarinho com apenas algumas horas de vida apareceu no meu quintal. Alias não contei, porque continua sendo um mistério a forma como ele apareceu. Vasculhei todos os cantos do quintal, todas as plantas e não há ninho nenhum de onde ele pudesse ter sido arremessado. Se as aves fossem mamíferos eu apostaria que a mãe teria dado a luz naquele lugar, mas um ovo tem lá um jeito muito diferente de reprodução, portanto fico devendo essa explicação.

O pequeno Hobbit já está a doze dias em nossa companhia. Nasceram-lhe parte das penas, não todas ainda. Parece um rapaz de 13 entrando na puberdade. O aquecedor elétrico contribuiu muito para a incubação, mas exigiu também muitos cuidados, visto que às vezes aquece muito, mesmo regulado para a temperatura mínima. Tem sido um liga e desliga constante, e uma contínua troca de lugar, ora mais perto dele, ora mais longe. É preciso acordar a noite e tomar algumas providências nesse sentido. Quanto à alimentação, sua dieta foi reforçada com a introdução de pequenos insetos que ando caçando no quintal como formigas pretas, algumas larvas que nascem embaixo das folhas das palmeiras e minhocas. Como tem chovido muito por aqui, qualquer pequena escavação de terra já produz minhoca. Mas ele é muito pequeno para engolir uma minhoca inteira. A princípio pensei em pesquisar na internet a maneira correta de alimentá-lo. Não o fiz por dois motivos: primeiro porque ainda não consigo identificar que espécie de pássaro é, e segundo porque deve existir ainda neste mundo alguma coisa que se possa fazer sem o computador. Ainda há bons instintos nas pessoas, impulsos naturais que guiam nossas ações quando lidamos com o desconhecido. Não quero seguir as instruções de um criador de carreira, não desejo criá-lo seguindo as orientações de um profissional, quero cuidar dele de maneira avulsa, da forma mais convencional possível, com a angústia e a esperança dos amadores. Vamos lutar um pouco contra esse excesso de padrões que o computador nos impõe. Vamos fazer as coisas do nosso jeito. Então, vamos à horta cavar a terra e apanhar minhocas bem pequenas e serví-las no bico com uma pinça para que ele se alimente e cresça.  

Crescendo ele está; as pernas ficaram longas, os olhos estão bem abertos e o bico se afinou fazendo-o se parecer cada vez menos com um filhote de pato e cada vez mais com um filhote de papa-capim ou papa-quirera. Ainda não voa, porém já não fica mais quieto na caixa; sai e vai passear sobre a cômoda, o que significa que os nossos cuidados  aumentaram, porque temos em casa não uma, mas duas gatas, e como ele acorda piando toda manhã, elas ouvem e ficam à espreita. Tornou-se necessário manter a porta e a janela do quarto fechadas, sob pena de haver em casa uma caçada à la Frajola e Piupiu.  Fosse ele um pássaro formado, confesso que teria curiosidade em ver essa caçada. As gatas cresceram e viveram por mais de doze anos num apartamento e embora preservem o instinto caçador dos felinos, elas não têm a menor habilidade para caçar, passam longo tempo ensaiando o bote e quando o fazem sempre é tarde, o pássaro já voou para o telhado em frente. Mas Hobbit é um filhote que mal sabe andar, seria uma presa fácil demais e não quero ver as gatas comemorando o primeiro êxito das caçadas.

Cuidado e paciência foi no que nossos dias se transformaram e às vezes uma inquietação nos faz questionar por que tanto empenho em salvar a vida de um filhote de passarinho, e em momentos em que essa perturbação é mais profunda perguntamo-nos que dotes extraordinários possuímos para tão complicada missão.

Mas eis que o pequeno Hobbit vai bem e essa crônica já vai longa. Não é possível finalizar a história hoje. Fico no aguardo dos acontecimentos, dos quais eu o pássaro somos ambos protagonistas. Semana que vem eu continuo, caso ninguém se manifeste para me pedir que mude assunto.

 

ADEUS HOBBIT

Por quarenta reais adquiro uma gaiola no centro da cidade. O pequeno Hobbit evoluiu, comeu insetos, ganhou penas novas e agora ameaça voar.  Como não iria muito longe, foi preciso prendê-lo para evitar riscos maiores. Foram três semanas de improvisos, catando insetos e inventando comidas e, aos trancos e barrancos, o filhote foi sobrevivendo, mudando de fase, fazendo sujeira no quarto fechado, mas enfim, aqui estou de novo e prometo que acabo essa história hoje. Até por que ele não está mais entre nós...

Houve momentos de tensão, a solidão de um filhote de pássaro vivendo entre humanos causou-lhe  alguma tristeza, achamos que estaria doente, mas ao vê-lo alçando pequenos voos retomávamos a confiança que em algum momento ele sairia daqui para sempre. Mas como saber a hora? Talvez deixando que a natureza se encarregar de nos avisar quando chegar o momento. Por enquanto é preciso prendê-lo para evitar que saia voando desajeitadamente, trombando nos armários, caindo de barriga no chão. E as gatas ouvindo tudo do lado de fora.

Agora não é mais preciso por a comida na boca, isto é, no bico, basta deixar o farelo e água accessíveis e ele se encarrega de fazer as refeições sozinho. A aventura que começou com um filhote minúsculo de pássaro, totalmente pelado, de olhos fechados, agora chega a um estágio de passarinho na iminência do primeiro voo. Ainda não cresceram as penas do rabo e talvez venha daí o seu desequilíbrio aerodinâmico no ar.

Ontem deixei a gaiola aberta no parapeito da janela, mas ele hesitou em sair. Parece que refletia sobre aquela antiga canção do Roberto Carlos: “Da janela o horizonte, a liberdade de uma estrada eu posso ver...”. Refletiu por dez minutos e por fim voou sem muita convicção para pousar no capô do carro. Pensou mais um pouco: “O meu pensamento voa livre em sonhos para longe de onde estou...”. Mais um voo curtinho e acabou pousando no muro.  Ainda indeciso: “Muita gente já se arrependeu e eu... eu vou pensar...”

Mas pássaro não é gente. Criou coragem, foi para limoeiro do quintal do vizinho e logo em seguida voou para outras árvores maiores a  duas quadras daqui. Não o vi mais. Limpamos o quarto, não há mais vestígio de ave nesta casa, ninguém sabe que um cômodo dela serviu de incubadora para um passarinho frágil que o destino arremessou no meu quintal. A essa hora deve estar se enturmando com outros filhotes que todos os dias saem do ninho. Adeus pequeno Hobbit.

Quando saiu daqui, as penas do peito, que eram claras, quase brancas, estavam ficando amarelas. Douradas para ser mais exato. Era um canarinho.

Angelo Humberto Anccilotto (Dez/2015)