O SER BARULHENTO

O homem é um ser barulhento. E dizendo homem, eu poderia me referir a toda espécie humana, visto que as mulheres também produzem alvoroços, mas vamos poupá-las nesta crônica, exatamente para evitar qualquer alarido posterior, e fiquemos com o barulho do gênero masculino.

O homem produz barulho justamente quando quer evitá-lo. Há muitos anos eu saía de casa às cinco e meia da manhã para trabalhar e o portão da garagem, manual e feito em alumínio, arrastava sobre o trilho produzindo um som tão estridente e perturbador que eu via pelas janelas da vizinhança todas as luzes se acendendo dentro dos quartos. Um vizinho, certa tarde, já embriagado e valendo-se da sinceridade que a bebida nos empresta, teve a coragem de me dizer que eu precisava concertar o portão. Expliquei-lhe que uma das roldanas tinha quebrado e eu não estava encontrando outra original para substitui-la, o que não adiantou muita coisa, visto que o homem continuou reivindicando o sossego da madrugada. Na manhã seguinte, constrangido pela reclamação do vizinho, quis sair de casa quase que imperceptivelmente. Liguei o carro, passei a marcha à ré e acelerei. Só então percebi que o portão ainda estava fechado. O para-choque traseiro do automóvel acertou-o em cheio com tamanho impacto que acabou atirando aquela estrutura metálica de três metros de comprimento por dois de altura no meio da rua. Em poucos minutos formou-se um aglomerado de homens de pijama na frente da minha garagem para recolocar o portão no lugar, com outro contingente de mulheres de camisola olhando pelas janelas e protestando contra minha imperícia de motorista.  Adiantava eu justificar dizendo que me esqueci de abrir o portão porque estava empenhado em não fazer nenhum barulho naquela madrugada?

Tenho um amigo que joga futebol toda quinta-feira à noite e quando chega em casa, já meio tarde, a esposa dormindo, ele evita até acender as luzes para não perturbar. Mas aí, segundo ela conta, ele vai trombando nas cadeiras e nos armários, chutando o ventilador, derrubando caixas e, não satisfeito, liga o fogão e vai preparar um bife na frigideira para reabastecer o estômago encharcado de cerveja. O cheiro do bife se espalha pela casa, entra no quarto, ela grita algum palavrão lá da cama, ele, na pressa de acabar logo com aquilo, tira o bife do fogo, põe no prato, coloca a frigideira quente na pia e abre a torneira. Estabelece-se o caos. Além do estrondo do óleo quente em contato com água fria, a explosão leva os jatos de gordura pelas paredes, lambuzando até o teto. Limpar agora e provocar mais barulho, ou deixar tudo daquele jeito até a manhã seguinte?  

Se isso é trágico, imaginem então a situação de outro amigo que também joga futebol às quintas-feiras, mas que, ao contrário do outro, não bebe e nem frita bife quando chega em casa; tudo o que ele deseja é um bom banho e depois cair na cama. Abre as gavetas com sutileza, retira a roupa que vai vestir para dormir, entra no banheiro acendendo apenas a luz sobre o espelho, como se a penumbra contribuísse para reduzir os ruídos, e vai para o chuveiro. Aí ele comete aquilo que o Luís Fernando Verissimo chamaria de “joelhaço”. O box do chuveiro é composto por duas folhas de vidro, uma fixa e outra que vai e vem. Apressado para acabar logo o banho, ele não percebe que a folha que vai e vem está na posição “vai” e acerta o joelho nela com tamanha força, arrancando-a do encaixe e atirando-a conta a parede. A esposa levanta num sobressalto imaginando que o teto da casa está desabando e dá de cara com aquela lâmina de vidro estilhaçada no chão e o marido comprimindo a rótula do joelho com as duas mãos, gemendo de dor.     

Dizem-nos que essa conduta desastrosa vem da nossa pouca sensibilidade táctil com os objetos domésticos, mas eu tenho a impressão que o que existe mesmo é uma fortíssima conspiração cósmica capaz de alinhar todos os planetas num segundo para modificar a força gravitacional do universo toda vez que um homem se propõe a trabalhar em silêncio. Experimentem um dia acordar mais cedo e, a título de colaboração, comecem a preparar o café da manhã. Você vai à cozinha pisando na ponta dos pés para não acordar ninguém. Vai descalço mesmo para evitar aquele chicoteamento do chinelo na sola dos pés, e quando vai apanhar a chaleira, o bule ou o coador, tem sempre uma caneca, um copo ou uma xícara propositalmente estacionada na frente. Quando você arrasta o bule ou a chaleira, arrasta junto o outro objeto, que cai do armário em cima da pia ou do fogão e daí para o chão. Em segundos a família toda aparece na cozinha, não para te socorrer, mas para reclamar do terremoto que você provocou. Nem a mulher, que sempre sonhou que o marido um dia lhe serviria o café na cama, é capaz de perdoar: “Por que não ficou dormindo? Deixa o café que eu faço!” E para evitar outros barulhos extras, é melhor obedecê-la.

Ângelo Humberto Anccilotto (Jul/2016)