O SENHOR SPOCK

Quinta-feira passada houve uma chuva de meteoros. Fragmentos da cauda de um cometa atingiram uma rota espacial visível daqui da Terra. Talvez em Guaraçai alguém possa ter visto o fenômeno que, na verdade, ocorreu na madrugada de sexta-feira, 13 de agosto. Bela alvorada para uma data destas. Aqui em São Paulo ninguém viu; esta cidade não tem nem estrelas fixas, quanto mais estrelas cadentes. Há quem duvide que exista sequer Céu em São Paulo.

Lendo a notícia, uma coisa puxa a outra, me lembrei de uma história que eu nunca contei a ninguém. Em outubro de 2003, o ator americano Leonard Nimoy veio a São Paulo para um encontro com seus fãs, em um dos salões do pavilhão do Anhembi. Para quem não lembra mais, ou nunca soube, Leonard Nimoy interpretava o Senhor Spock de Jornadas nas Estrelas. Essa antiga série de televisão possui fã-clubes no mundo inteiro, que em tempos de internet são chamados de comunidades. Não faço parte de nenhuma comunidade, apenas gostava dos filmes e a série para, como diria o próprio Spock, era fascinante.  Entre as milhares de pessoas que foram ao Anhembi recepcioná-lo estava o modesto autor destas linhas.

Sofremos um pouco dentro de um salão apertado e quente porque o ator demorou a entrar. Quando chegou fez uma piada dizendo que se atrasara porque sua nave quebrou na viagem. O povo riu. Se tivesse dito outra bobagem qualquer, o público iria rir do mesmo jeito. Havia uma multidão vestida a caráter, com as camisetas dos tripulantes da Entreprise, e gente com orelhas postiças, pontiagudas, em homenagem ao personagem que era meio humano e meio alienígena.

O homem de 44 anos em que eu me tornara em 2003 via com naturalidade o astro acenar para o público, sorrindo, gritando palavras de ordens dos trekkers, empolgado com as bajulações que recebia, mas o adolescente de 13 ou 14 anos que foi comigo, escondido na alma, reprovava aquela situação patética, cheia de tietagens, e esperava inquieto que gradativamente o ator incorporasse o personagem, assumindo a inabalável personalidade do cientista Vulcano, calcada em sua lógica rigorosa, desprovida de qualquer emoção. Esperava que ele informasse a data estelar, fornecesse as coordenadas da viagem e explicasse o objetivo da missão espacial como fazia nos episódios da tevê, a trinta ou quarenta anos atrás.

   Eu tinha ido ao Anhembi não propriamente para ver Leonard Nimoy, mas para encontrar Spock, como quem fosse ao encontro de um amigo que retornava de uma longa marcha pelas diferentes dimensões do Universo.  Eu bem sabia que o ator viera de Los Angeles num vôo comercial da American Airlines, desembarcara em Guarulhos, se deslocara do hotel até o teatro num carro oficial arranjado pelos organizadores do evento, mas no fundo o que eu queria acreditar mesmo era que ele chegara àquele palco teletransportado de uma galáxia distante, por meio daquela maquininha que nos filmes convertia o corpo humano em energia e depois em matéria novamente. Daí a pouco ele evaporaria, literalmente, diante dos nossos olhos.

Mas o homem alto e magro, de setenta e dois anos, que eu via no palco não passava de um astro de Hollywood, que certamente cobrara um punhado de dólares para vir ao Brasil. Para meu desapontamento ele não trazia noticia dos Klingons, não sabia nada dos Romulanos e não conhecia seus parentes Vulcanos; nunca tinha posto os pés fora da Terra.  Limitava-se a contar cenas engraçadas do set de filmagem e a retribuir a amabilidade que recebia da plateia. Toda a saga heroica da aventura espacial fora vivida num estúdio, onde a abóboda celeste era só um teto abaulado de alvenaria, recoberto de pano e papel em tom azul, salpicados de estrelinhas cintilantes, e a poderosa nave que viajava próximo à velocidade da luz, nada era senão uma miniatura de alumínio e plástico desenhada por algum projetista da indústria cinematográfica.

O encontro termina. Os fãs correm para pegar autógrafos e tirar fotos com a celebridade. Não chego a tanto; estar no mesmo ambiente que ele já era o suficiente para este pobre terráqueo. Na despedida, ensaio uma saudação levantando o braço direito até a altura da cabeça tentando separar os dedos de par em par como Spock fazia sempre quando se despedia de um planeta hospitaleiro. Na porta uma moça mostra orgulhosa uma foto da dupla do comando maior da Enterprise já assinada pelo ator Wiliam Shatner, o capitão Kirk. Ia agora subir ao palco e tentar a assinatura do segundo oficial da nave.

Saio do teatro, entro num bar e procuro uma mesa ao ar livre. A noite vem caindo brandamente sobre a tarde quente de um sábado de verão precoce. Enquanto aguardo a cerveja penso que Leonard Nimoy estará retornando ao seu hotel onde irá jantar e descansar da longa jornada. O Senhor Spock, ao contrário, não descansa. No meu pensamento ele viaja livremente entre estrelas encobertas, rasgando as fronteiras do Universo, audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve.

E muito provavelmente jamais estará.

 (Angelo Humberto Anccilotto – Ag/2010)