O CONDOR E OUTRAS BELEZAS

Houve um tempo, e eu espero que alguém se lembre disso, que existia uma produtora de filmes de nome Condor. E acontecia de a gente ir ao cinema e antes do filme começar, como introdução, o estúdio rodava a sua marca que era um condor voando serenamente entre as montanhas. Muitas vezes o filme não prestava, mas o voo do condor era por si uma arte. Belo e imponente ele nos redimia daquela hora e meia mal aproveitada.

Então eu digo a vocês que não façam o que eu fiz. No zoológico de Pomerode fui ver de perto o condor. Mais que isso, fotografei. Se um dia forem ao zoológico e  encontrarem a seta indicando a “jaula” do condor, não vão lá. Se estiverem viajando e alguém os convidar para escalar as montanhas dos Andes e ver de perto um ninho de condor, resistam.  Condor não é ave para se ver de perto. A quatro ou cinco metros de distância ele é outra ave, melancólica, sofrida.. Vejam antes o condor voando pelas imagens da National Geographic, ou respeitem a memória do seu voo nos velhos filmes de antigamente. Condor é ave para se ver de longe, daqui de baixo, enquanto lá em cima ele manobra as asas livre, inatingível, como o mais belo e cobiçado dos sonhos que guardamos secretamente na alma.

Vale dizer o mesmo para certas telas pintadas a óleo. Olhá-las de muito perto provoca um embaraço de matizes, luminosidade e saturação, que tira a harmonia da pintura. É preciso manter uma razoável distância dos quadros para que possamos apreciar a combinação de tons e de traçados. A nossa proximidade destorce a imagem e faz os detalhes prevalecerem sobre o todo. A grande visão geral que o artista quis transmitir se perde na profusão de particularidades e acabamos por desmerecer a obra pela imperfeição de uma minúscula partícula mal assentada.

E, por fim, a mesma coisa se aplica aos grandes vultos que passaram pela história. As biografias de grande gênios da humanidade muitas vezes  dissecam as suas vidas e expõem detalhes, por vezes até sórdidos, que fica difícil entender como um homem tão mesquinho em seu particular pode gozar de tamanha reputação no coletivo de suas realizações.  Ler uma biografia é, de certa forma, invadir a privacidade daqueles que admiramos, o que equivale a cometer um delito contra a sua memória.

E mais por fim ainda, vale recordar Vinicius de Moraes em sua definição de musa: “A musa é aquela mulher que não pode ser vista todo dia.” É preciso que seu mistério fique protegido pela sua ausência, que seu encanto se fortaleça na nossa vontade de revê-la algum dia. Encontrá-la todo dia é transformá-la numa mulher comum como as musas não são.

Angelo Humberto Anccilotto (Jan/2016)