DESENGANOS

Em 1992, nos Jogos Olímpicos de Barcelona, a pira foi acesa por uma flecha incandescente que um arqueiro arremessou de um distância de noventa metros.  A tocha olímpica entrou no estádio trazida pelos atletas, o arqueiro tocou a ponta da lança embebida em material inflamável e arremessou. A flecha caiu dentro da pira e o fogo subiu fazendo um grande clarão em volta. Na época escrevi uma crônica para a Folha de Guaraçai descrevendo aquele momento de rara beleza que se insinuava como cartão postal dos Jogos daquele ano.

Na semana seguinte, um amigo me disse que eu tinha feito uma bela crônica mas que eu era um tonto, porque, na verdade, a flecha não acendera pira nenhuma; ela tinha passado sobre o monumento e caído num terreno fora do estádio. O que desencadeara o fogo foi um dispositivo eletrônico acionado no exato momento que a flecha flexionava sua trajetória no ar e começava a descer atrás do obelisco. A câmera da televisão fora programada para alcançar a imagem até que a flecha passasse sobre a pira; daí para frente a imagem era apenas a da chama dentro dela.

Essa foi a primeira vez que me decepcionei com uma crônica. Depois teve outras tantas vezes, mas essa me trouxe um desencanto profundo. Coloquei até certo lirismo na minha narrativa para, no fim, descobrir que havia descrito uma cena falsa, que nada daquilo acontecera. A crônica valeu assim mesmo, porque emprestei meus sentimentos a uma imagem que julguei ter visto, sem saber que era só uma ilusão de ótica. Mais ou menos como o amante que sai à noite levando flores para a amada e a encontra em casa nos braços de outro. Não há que se culpar a flor que oferecemos, mas a perfídia de quem não soube merecê-la.    

Escrevo isso em março de 2016, no dia em que o ex-presidente Lula foi chamado para tomar posse como novo ministro do governo atual. Há uma tremenda confusão no ar, milhões de pessoas querendo parar o Brasil para evitar que ele se torne ministro. Seu destino, segundo esses milhões de pessoas, deveria ser a penitenciária da Papuda, em Brasília, para pagar pelo crime de corrupção de que é acusado. Houve gente na noite anterior que entrou no lago em frente ao palácio do governo para protestar contra sua indicação, houve ameaças e palavrões, xingamentos e outras manifestações de raiva.

Mas confesso que vi, e escrevo isso agora com o mesmo receio de ter visto uma flecha ilusória acendendo uma pira olímpica, mas ainda assim arrisco testemunhar que vi o povo, em 2003, brincando neste mesmo lago, pisando nesta mesma grama, como se isso representasse todas as liberdades jamis conquistadas. E percebo que não sinto apenas o mesmo receio de ter visto um flecha ilusória, mas sinto a mesma decepção de ter escrito aquela crônica.

Não é o Lula em si que me decepciona, nunca tive qualquer simpatia pelo seu programa de governo e nunca ajudei a elegê-lo. O que me decepciona é que o governo, por algum momento, esteve nas mãos do povo, dos operários sofridos deste imenso Brasil. Houve uma eleição e o povo escolheu um Silva, sem complemento e sem quepe paa governar o país. E fez muita festa quando ele apareceu com uma faixa verde e amarela transversal sobre o peito, designado para conduzir nosso país a um lugar em que jamais esteve.

Pouco mais de uma década, aparece alguém e diz, como o meu amigo me disse depois da crônica: “Seus tontos, vocês não perceberam que era tudo mentira?” Sim esse povo foi tonto, ousou acreditar num sonho falso de vida e liberdade como eu ousei descrever com lirismo uma cena olímpica que não aconteceu. É como se o povo, principalmente os operários sofridos deste imenso país, jogasse fora a oportunidade de governar que um dia lhe foi dada.

Ah, como é cruel esse momento em que o engano nos deixa sozinho na mesa e vai sumindo na penumbra, enquanto pela mesma porta entra a realidade, toda nua, toda ridícula, vulgar e indesejada, banhando-se de luz a cada passo em nossa direção. Como seria bom permanecer nessa penumbra, sem nunca utrapassar os limites da ilusão. Mas não há que se culpar o sonho dessa gente e sim a perfídia de quem trouxe o desengano e destruiu essa relíquia tão cara.

Angelo Humberto Anccilotto (Mar/2016)