A ELEGANTE FALTA DE EDUCAÇÃO

Entro numa confeitaria por volta das cinco da tarde, apanho a comanda eletrônica na passagem pela catraca e dirijo-me ao balcão de doces. Enquanto aguardo para ser atendido, uma senhora  de aparência elegante, que chegou depois de mim, quebra o protocolo e vai logo pedindo meio quilo de carolinas. Depois, volta-se para mim e, toda sorridente, se desculpa: Perdão! Passei na sua frente, né?

Aquele sorriso e aquela polidez não me convencem. Respondo que não tem importância, e que em alguns momentos eu também sou maleducado. Ela me repreende com o olhar, mas não ligo. Ao contrário do que ela imagina, o fato dela se desculpar comigo e sorrir  não a redime da má educação demonstrada quando avançou o balcão para ser atendida fora da sua vez. As filas servem exatamente para isso, para as pessoas que chegam primeiro serem atendidas antes, equilibrando o dispêndio do escasso tempo disponível.

Em outra ocasião estou parado na calçada à espera do semáforo quando uma moça me pede licença para passar. Finjo que não ouço. Ela insiste em tom agressivo: Dá licença, por favor! Não arredo pé. Estou aguardando o sinal abrir para atravessar a rua e ela tem a mesma intenção, só que quer se projetar entre os carros porque está atrasada.  Não me comovo. Cheguei àquele lugar, àquele minúsculo pedaço de calçada onde só cabem os meus pés e tenho o direito de permanecer ali enquanto o sinal estiver fechado para minha travessia. O fato dela me pedir licença e depois acrescentar um por favor! não lhe dá o direito de ocupar o lugar onde estou ou de transitar por ele. Estou praticando uma regra de boa conduta (e de educação), aguardando o sinal abrir para o deslocamento seguro. A licença é minha, não sou obrigado a conceder-lha. Ela que seja educada e aguarde a vez de atravessar em algum lugar ainda desocupado da calçada, como todo mundo em volta está fazendo.

Ainda outra vez, ao subir os sessenta e tantos degraus da escada do metrô na estação Consolação, encontro um rapaz parado no patamar, conversando com uma moça, impedindo a minha passagem e a de centenas de outras pessoas. Todos desviam, e no desvio, os que vêm abalroam os que vão. Eu sigo reto e vou atropelando o rapaz que se volta furioso para mim, diz que sou estressado, que ele está prestando uma informação que a moça solicitou. Eu não tinha educação, não?  Resolvo não me aborrecer e sigo adiante, mas poderia recuar e responder para esse garoto que o ato de prestar informação é uma atitude generosa por parte do ser humano e ela seria mais grandiosa ainda se fosse feita a cinco passos dali, na calçada junto à coluna externa do prédio em frente, local que não impediria a passagem dessas centenas de pessoas que já sofrem no metrô lotado e encontram no topo da escada, na área de circulação, um jovenzinho folgado obstruindo o caminho de todo mundo. A falta de educação que ele vê em mim, na verdade é ele quem está praticando. 

Esses pequenos episódios denunciam a equivocada interpretação dos conceitos básicos do bom costume. Em muitos casos um pedido de desculpa ou de licença, ainda que vindo de pessoas elegantes, soa mais como arrogância do que como educação. Roubam a nossa vez na fila, tomam nossos lugares no teatro, sentam nas nossas poltronas de viagens, estacionam na frente das nossas garagens, e querem compensar esse desrespeito com um sorriso insosso e uma expressão mecânica absolutamente desprovida de qualquer arrependimento.

Para a senhora da confeitaria que não esperou a sua vez, para a moça que queria passar onde eu estava e atravessar a avenida antes do sinal abrir, e para os jovens que impediam a circulação das pessoas no patamar da escada do metrô, já não há muito o quê fazer. Certamente eles seguirão obtendo vantagens e se autoabsolvendo por meio de pedidos de desculpas e de licença pela vida a fora. Quanto às crianças, eu proponho aos modernos educadores que ensinem a elas as boas maneiras de convívio social com uma alteração nos métodos utilizados. Não comecem ensinando-as a pedirem desculpa ou licença. Não digam que isso é educado. Façam-nas entender primeiramente que entre duas pessoas, a educação consiste em reconhecer que o direito de uma só começa quando acaba o da outra. Antes disso qualquer demonstração de bons princípios baseado em chavões maquinalmente construídos, é mera banalidade. A maioria das pessoas que pedem desculpas no fundo não se sente culpada de nada. No futuro, quando chegarmos ao mundo melhor que todos sonham construir, os habitantes de lá precisarão muito mais de humildes demonstrações de respeito do que de elegantes pedidos de desculpas.

 ANGELO HUMBERTO  ANCCILOTTO (Jan/2010)