A HIBERNAÇÃO DA ONZE-HORAS

Outro dia vi na televisão uma reportagem que tinha como foco um produtor agrícola que instalou vários sensores no meio da lavoura com a finalidade de captar a umidade das folhas das plantas. O sensor foi conectado à uma mini estação meteorológica que registrava os dados e enviava a um computador, onde um operador fazia a análise com o objetivo de identificar se a plantação estava propensa a fungos devido ao grau de umidade registrada. Segundo a reportagem, isso auxiliaria na decisão de antecipar a aplicação de agrotóxico, prevenindo as pragas que surgiriam em consequência das folhas úmidas.

Fiquei feliz ao saber que a tecnologia está ajudando o agricultor a prevenir as pragas e aumentar as suas colheitas. É bom que haja fartura, há muitas bocas no mundo para alimentar, mas também fiquei triste por constatar que o homem ficou descartável no meio da sua plantação.  Não o homem em si, na sua constituição física, que anda, que vai e vem, que fala, que guia o trator, que joga adubo no chão, que sua a camisa no campo no cumprimento da jornada de trabalho, mas a essência do homem na interação com a sua profissão.  A um bom agricultor bastaria tocar as folhas com os dedos e ele saberia a intensidade da umidade. O verdadeiro homem da roça tinha tato para lidar com a lavoura, mas os modernos gerentes de produção agrícola cairiam no descrédito se suas decisões fossem tomadas apenas por antigos métodos subjetivos, sem levar em conta a sofisticação da ciência disponível no mundo. Então é preciso instalar estações no meio da plantação, ficar atento às respostas do computador e chamar a televisão para divulgar a grande maravilha. 

Mas vocês devem estar preguntando o que seria essa hibernação da Onze-Horas e o que o título desta crônica tem a ver com o programa da televisão. Seria um sono profundo? Dorme-se profundamente às onze horas?  Mas eu vou explicar: a Onze-Horas é uma flor da família das Portulacas e tem esse nome porque abre por volta das onze horas, em dia de sol muito quente. É uma espécie de grama tratada como erva qualquer ,que muitos arrancam do quintal sem lhe dar valor. Eu mesmo já fiz isso quando era criança, arrancando-a da beira do terreiro como simples beldroega. Naquela época suas flores eram miúdas, sem-graça, mas a que eu tenho aqui em casa é uma espécie aperfeiçoada, com flores amarelas, brancas e vermelhas, como se fosse um cravo rasteiro. 

E aconteceu que chegou o outono, e depois o inverno, e o sol seguiu outra rota  deixando meu pequeno pé de Onze-Horas na sombra. Em consequência disso suas folhas se fecharam. Quando a gente aprende a desenhar na escola primária os primeiros desenhos que vão para o caderno são sempre uma árvore em cujos ramos colocamos as folhas intercaladas e abertas. Era exatamente isso que não acontecia com a minha Portulaca. As pequenas folhas se encolheram ao longo da rama formando um filete único. Antigamente se dizia que a planta estava dormindo. Há muitas plantas que dormem quando o sol se põe e só despertam no dia seguinte, à medida que o sol esquenta. 

O fato é que a Onze-Horas dormiu de maio até agosto e eu me sentia como aquela pessoa que acorda cedo enquanto o resto da família permanece com as portas dos quartos trancadas. Nessas situações a gente sente medo de andar pela casa, de acender o fogo para fazer o café, de ligar a televisão ou o rádio, tudo para proteger o sagrado sono dos que não saíram do quarto. Tentei abrir as folhas com a mão, mas elas retornavam à posição de descanso, até que me veio a ideia: com uma pá, removi-a com um bom tufo de terra para outo local onde o sol batia de manhã até o anoitecer. Isso foi equivalente a atirar um balde de água fria na cabeça de uma pessoa para ela sair da cama. Em dois dias as folhas se esparramaram; em duas semanas as ramas já tinham crescido uns dez centímetros.

Se eu fosse um grande floricultor de Holambra certamente já teriam me vendido um sensor para detectar o sono da Onze-Horas e eu a teria removido bem antes, levando-a à luz e ao calor antes que hibernasse e atrasasse sua florada.  Mas pertenço a uma antiga geração de lavradores que ainda usa o tato dos dedos, os olhos e um pouco do coração para entender os apuros e as artimanhas das plantas. Talvez por agradecimento ao meu gesto, semana passada ela deu flor.

Angelo Humberto Anccilotto (Sett/2015)