A GOIABEIRA E A PRIMAVERA

A primavera em questão não é a estação das flores, que deve chegar só em setembro, mas um pé de ramas trepadeiras que recebe esse nome, muito comum nos jardins de todas as casas, e que nesta época do ano, antes que o rigor do outono comece a desfolhá-lo, anda coberto de pétalas vermelhas ou lilás, e a goiabeira é a goiabeira mesmo, esta árvore também comum no Brasil, que produz frutos bichados e faz a alegria dos sanhaços.

Aconteceu que nestes últimos dias de verão o sol andou ainda muito forte e as chuvas, atendendo a tantas súplicas de almas aflitas, começaram a cair com razoável regularidade. O resultado disso foi um mormaço que se formava todo fim de tarde, fazendo crescer as plantas e dar viço às suas folhas castigadas pelo sol dos últimos tempos. E a primavera foi uma das plantas que mais cresceram. Os brotos novos, imponentes, subiram, atravessaram o muro, tal crianças peraltas que se desgarram dos pais, e encontraram os galhos da goiabeira.

O encontro foi uma festa. De folhas parecidas vistas de longe, ninguém percebeu que o ramos da primavera trepavam nos galhos da goiabeira do vizinho.  Não até que a Natureza em sintonia com seu tempo ordenasse que os ramos da primavera florissem. E todos então exclamaram: Oh, uma goiabeira coberta de flores vermelhas!

 Não ficou feio, pelo contrário, os ramos da primavera não invadiram a goiabeira, apenas se entrelaçaram aos galhos dela discretamente, quase imperceptíveis aos nossos olhos, e floriram como se fosse o próprio pé de goiabas que florisse. A notícia se espalhou no bairro. Na rua tal, número tal, tem um pé de goiabas florido com pétalas vermelhas. De goiabas vermelhas? - perguntavam os que não entendiam direito a informação recebida. Não se sabe se era de goiabas vermelhas ou brancas, mas sabe-se que ele floriu, fato inesperado e muito apreciado por quem passasse na frente da casa e se encantasse com o mais recente fenômeno da flora brasileira, sem saber que do outro lado do muro havia uma primavera guardando em segredo a aparente metamorfose da goiabeira.

Não se via árvore mais feliz na redondeza. Garbosa, altiva e até com arrogância, a goiabeira balançava seus galhos ao vento, como a nos mostrar com orgulho enganoso, a sua nova roupa da estação. Mas aconteceu que o dono da casa do outro lado do muro achou que era hora de podar as plantas e ao perceber que haviam galhos saltando o muro e incomodando as plantas do quintal vizinho, tratou de serrar os ramos fugitivos e manter o pé de primavera sob domínio, contido nos limites de seu terreno, tanto no espaço terrestre como no espaço aéreo.

Em dois dias desfez-se o milagre. Quem passasse na rua tal, número tal, veria apenas folhas e flores murchas, secando ao sol, revelando o embuste da goiabeira florida. A goiabeira, sem graça, tratou de recolher-se à sua humilde condição de árvore afloral, tendo como orgulho próprio apenas as pequeninas flores brancas que precedem seus frutos pouco aproveitados depois de maduros.

Deu para notar que entre as pessoas que apreciavam o fenômeno da goiabeira florida houve quem se amargurasse com a poda que o dono da primavera fez em suas plantas. Tenho para mim que eram pessoas de fina estampa que, como a goiabeira, andam altivas e arrogantes pelas ruas, cobertas de flores que não são suas, mas as tomam de outros ramos distraídos, apanhados além dos muros dos quintais alheios.

Angelo Humberto Anccilotto (Mar/2015)