COISAS DIFÍCEIS DE ENTENDER

Quem já o leu o gibi (ainda chama gibi?) da Turma da Mônica sabe que o Cascão tem esse apelido porque não gosta de tomar banho, sejam esses banhos de chuveiro, de piscina, de mar ou de chuva. Entre as justificativas para essa aversão à agua e sabão ele nos dá essa: “A gente toma banho e depois tem de se enxugar. Se é para ficar seco, para quê se molhar?” É um argumento inocente, pueril, mas se até Maurício de Souza revela por meio dos seus personagens que tem coisas difíceis de entender, imaginem nós, os dotados de cérebros não tão aprimorados como o do grande mestre das historinhas infantis.   

Pensando nisso, e puxando o assunto para coisas de gente grande, há inúmeras situações em que não entendemos a lógica das coisas. Por exemplo, estas:

Você viaja pelas rodovias do Brasil e percebe que as grandes metrópoles, capitais ou não, construíram anéis viários no entorno da cidade para desafogar o trânsito, de tal modo que os automóveis, e principalmente os caminhões, não atravessem por dentro da cidade. Aí o prefeito (ou o governador) seguinte, aproveitando-se do rodoanel  resolve criar uma zona industrial ao lado da pista. Surgem então inúmeras pequenas empresas beneficiadas pelos incentivos fiscais e pela logística. Percebendo que a zona industrial cria muitos empregos, as imobiliárias e as prefeituras loteiam os terrenos em volta para construção de moradias. Surgem na sequência inúmeros condomínios residenciais apinhados de gente e se torna necessário construir escolas, postos de saúde, delegacias, cartórios, igrejas, agências bancárias, padarias, supermercados para atender a demanda dos novos moradores. Em quatro ou cinco anos, o rodoanel que foi construído para ser rápido e ficar longe do perímetro urbano, está inserido no meio da cidade, tornando o trânsito um inferno outra vez, com a população reivindicando semáforos, lombadas e passarelas.

Um casal constrói uma casa nova, moderna, bonita, do jeito que sonharam. Na hora de colocar o piso, o marido sugere para a esposa: “Vamos colocar carpete?” A mulher vira um bicho: “Carpete, você está louco? Carpete é quente, é difícil de lavar e cria fungos. Vamos colocar piso frio, que além de ser mais fresco é bem mais fácil de limpar.” Os dois vão à loja de material de construção escolhem a cerâmica mais bonita, mais bem decorada e colocam na casa. Antes de mudarem para nova residência a mulher vai à uma tapeçaria e encomenda o tapete mais grosso que tem lá, manda entregar em casa e reveste cada centímetro do piso frio. Depois, toda sexta feira tem de tirar tudo pra fora, estender no quintal, varrer, aplicar antiácaro e colocar de volta no lugar.

Perto da minha casa tem um órgão da Prefeitura de São Paulo onde na placa de identificação na porta se lê: DIVISÃO DO NÚCLEO DE GESTÃO DESCENTRALIZADA CENTRO-OESTE I E CENTRO OESTE II. Algumas coisas que escrevo aqui não passam de ficção; quando falta assunto para a crônica eu invento. Mas esse órgão municipal não é ficção, ele existe mesmo, e toda vez que passo em frente eu me ponho a imaginar o que significa aquilo. Mais do que imaginar, eu tento decifrá-lo. Leio a placa e saio repetindo pela rua: Divisão do Núcleo de Gestão Descentralizada. Núcleo a gente sabe que é um centro, que se refere a um ponto central, a uma aglutinação, então imagino que a Prefeitura descentralizou a gestão, depois criou um núcleo para recentralizá-la, e num momento seguinte dividiu esse núcleo. E se esse prédio, embora localizado na região quase sul da cidade, abriga as Divisões Centro Oeste I e II, imagino em quantas partes não terá sido dividido esse núcleo que centralizou a gestão descentralizada da Prefeitura.

A natureza humana não é fácil de entender. Razão mesmo tinha aquele louco que certa vez escreveu no muro do hospício: A vida não é se não aquilo cujo o mesmo vivemos o qual.

Angelo Humberto Anccilotto (Setembro/2014)