A SEGUNDA TELA

 - Você sabia que a missão do Twitter é ser a segunda tela?

- Ah é?

- E Eles vão conseguir! Aqueles caras são feras.

- Ah é?

- Você não acha isso sensacional?

Quem me conhece sabe que sou uma pessoa de poucas palavras e para dar uma opinião dessas foi preciso disfarçar e perguntar constrangido:

- O que é a segunda tela?

 Meu amigo me olhou com espanto e esclareceu:

- Hoje em dia todo mundo assiste televisão com um IPad no colo, ou com um celular navegando na internet, ou até com um note book do lado. A televisão é a primeira tela que todo mundo assiste. Nela, a Globo disputa a audiência com a Record, que disputa com a Fox, com a Sony e assim por diante. Na segunda tela, o Twitter disputa com seus concorrentes...

- Mas para que serve isso?

- É assim: você está assistindo a um filme na televisão e está online no Twitter. Então você pesquisa tudo sobre aquele filme, quando foi feito, quanto custou, quem produziu, quem dirigiu, onde foram rodadas as cenas, quantos minutos dura e você compartilha isso na rede. Tem milhares de pessoas vendo o mesmo filme, que também estão online, e todo mundo fica trocando informação. É um barato.

- Ah é?

- É. Pode ser partida de tênis, de golfe, olimpíadas, qualquer coisa que você está assistindo na televisão, você pesquisa e posta informações no Twitter.

 Quis mudar de assunto, pensei em dizer a ele que em 1978, quando cheguei a São Paulo, eu já trabalhava com computador. Não esses computadores de hoje, mas numa velha máquina Sharp que armazenava dados em cartão magnético e depois produzia relatórios estatísticos, e através deles levantávamos custos, controlávamos estoques e definíamos o ponto de pedido das peças de reposição na fábrica. Eu poderia ter aproveitado a oportunidade e ter me matriculado num curso de processamento de dados, que hoje chamam de ciência da computação, mas computador nunca foi minha vocação. Prefiro as máquinas de escrever, embora deva confessar que, em 40 anos, nunca aprendi a tabular uma máquina de datilografia. Meu amigo prossegue, encantado:

- Você está vendo televisão, aí vem os intervalos. O que você faz nos intervalos? Fica vendo comercial? Não dá, né?

- Vou ao banheiro - respondi.

- Em todos os intervalos?

- Todos não. No primeiro ou em algum outro.

- E nos outros?

- Nos outros eu beijo a minha mulher. Deito no colo dela, ela fica brincando com os meus cabelos. Quando o filme recomeça a gente volta à posição original no sofá.

 Foi a vez dele se embaraçar e comentar constrangido:

- Ah é?

                                                             ***

Sim, é. E como estamos na metade de junho, me ocorre ficar imaginado como teria sido o dia dos namorados dessa nova geração, desse povo plugado na segunda tela. Não é segredo para ninguém que no dia dos namorados os motéis ficam lotados, com filas de espera do lado de fora. Mas imagino que os jovens casais vão para o motel portando IPhones ou aparelhos afim. Escolhem uma suíte, entram, se beijam e cada um de um lado da cama consulta a internet. Postam mensagens, compartilham fotos, e voltam a se beijar. O aparelho dá sinal de nova mensagem, eles interrompem os carinhos e se põem a responder. Um mostra para o outro o post que chegou. Eles riem. E assim, de minuto em minuto, passam o tempo recebendo e retornando as chamadas. Quando enfim se lembram da razão principal de estarem num motel e tentam retomar as carícias, o interfone toca com a recepcionista avisando:

- Senhor, o seu horário está esgotado.

Eles voltam para o carro, o rapaz paga a conta, a moça aproveita a luz da recepção e navega no Twitter, buscando informação sobre o dia dos namorados dos outros casais. Podem, pelo menos, contar com a solidariedade dos amigos que estão online curtindo a segunda tela.

Ângelo Humberto Anccilotto (Junho/2013)