FOGO-APAGOU

É preciso ouvir os pássaros. Nós, os que não sabemos cantar, e andamos enfastiados dos gêneros musicais da moçada de hoje, é melhor desligar o rádio ou a vitrola e ouvir os pássaros. De geração para geração o gênero musical das aves não muda; o sabiá canta hoje como cantava no século XVIII. É preciso ouvir a voz dos pássaros nesses tempos sem caça em que eles se multiplicam e chegam às cidades, andam nas calçadas, chocam nos telhados urbanos. Já vi tucanos e mutuns em Guaraçai, e na última visita à cidade tive a impressão de ter visto duas siriemas na estrada do cemitério. É preciso abandonar o telefone e o computador e os minúsculos aparelhos de som, retirar os fones do ouvido e ir à janela ouvir a melodia dos pássaros.

Há uma ave em particular que me prende a atenção desde criança. Perdi-a por alguns anos e cheguei a pensar que não existia mais, mas voltei a reencontrá-la nos tempos de agora. É uma rolinha carijózinha que canta nos galhos altos das árvores ou nos fios superiores dos postes. Não é ave festeira, de cantar em bando, pelo contrário, todas as vezes que a vi cantando, cantava de forma solitária, às vezes correspondida por outra numa árvore mais longe, e às vezes não. Quem canta seus males espanta, dizem os mais velhos, mas não me parece que essa pequena pomba cante para afugentar tristezas. Ao contrário, seu arrulho parece prenunciar uma grande alegria: o fogo apagou!  

Água, Terra, Fogo e Ar são os quatro elementos da Natureza, a partir dos quais se formam todas as coisas.  A formação do mundo a partir desses elementos é um conceito mais filosófico do que científico, e não vale aqui estender uma linha sequer sobre o assunto, a não ser para dizer que se eles têm poder de formar vidas tem também poder de destruí-las, principalmente o fogo, que muitas tragédias já nos forneceu. Todos os anos o fogo se repete nas matas em algum lugar do Brasil e os pássaros e os bichos põem-se a voar e a correr loucamante para fugir da morte. E entre esses pássaros e esses bichos há filhotes que não correm e nem voam e são ceifados pelo terceiro elemento da Natureza. 

Então vem essa rolinha solitária anunciar para a bicharada que o fogo apagou, como a chamar de volta os velhos amigos que partiram. O grande incêndio se desfez, as árvores estão brotando novamente, é tempo de refazer os ninhos, chocar os ovos e, principlamente, cantar. É preciso desligar os computadores, sair dos escritórios, abandonar os automóveis, prender as mãos nos bolsos e andar pelas ruas mais distantes das periferias das cidades do interior, atravessar as cercas, ir às matas e ouvir o canto dos pássaros. E imaginar essas coisas tolas que imagino. É preciso saber que a pombinha carijó está nos trazendo a boa noticia, anunciando com alegria que o fogo apagou.

Angelo Humberto Anccilotto (Ago/2014)