AS LUAS TERRESTRES

"A Lua no bolso:Exatamente às 23 horas, 56 minutos e 32 segundos (hora de Brasília), o comandante Neil Armstrong tocou o solo da Lua, descendo pela cabine do Módulo Lunar, 6h38min depois de ter pousado na superfície do satélite natural da Terra. “ A porta está se abrindo” – disse Armstrong  às 23h39min. Um minuto depois o astronauta vislumbrava diretamente a superfície da Lua.

Lentamente, com movimentos extremamente seguros, começou a descer a escadinha do módulo, pisando sempre com o pé esquerdo. Quando alcançou o segundo degrau, a televisão começou a transmitir diretamente da Lua para a Terra, focalizando perfeitamente o astronauta. Já sobre o solo lunar, Armstrong afastou-se do módulo e começou a executar suas primeiras tarefas, tornando realidade um sonho milenar do homem." (Folha de São Paulo, 21/07/1969).

Lá se vão 45 anos. Mais da metade dos habitantes da Terra não presenciou isso (e outra metade dos que viram, hoje duvida do acontecimento). Eu era criança, e acompanhei pelas informações precárias daquela época a saga da viagem espacial, desde Apolo 8, se não estou enganado. O Projeto Apolo está para a era espacial assim como o Projeto 14 Bis está para a aviação civil. Toda a contemporaneidade duvidou do avião, assim como duvidou que o homem chegaria à  Lua.

A Apolo XI chegou. E chegando houve rumores e especulações a respeito do que o homem teria ido fazer lá. Buscar diamantes, buscar minérios, descobrir a cura do câncer, instalar satélites espiões, procurar água, achar petróleo, tudo isso foram respostas que ouvi à trivial pergunta sobre o que homem teria ido fazer lá, se metendo nos mistérios do Céu e de Deus. O conceito de espaço ainda era muito vago, e tudo o que estava acima de nossas cabeças, a partir das nuvens, pertencia ao Céu. A chuva, o trovão, os raios, o sol, as estrelas e a lua eram coisas do Céu e cabia ao homem respeitá-los sem avançar em seus mistérios divinos.

E o homem foi à lua em busca de vida. Não exatamente de homens, mulheres e bichos, mas de qualquer espécie de vida do reino animal, vegetal ou mineral. Uma bactéria que fosse, uma molécula de hidrogênio, um ramo de planta parasita encravada nas rochas, uma folha seca a partir da qual se pudesse formar a teoria de que a vida na Lua era viável.

Mas Armstrong só encontrou areia e viu que a Lua tem uma face para a luz e outra para as trevas. Em vez de dia e noite se revezando a cada doze horas como na Terra, a Lua tem uma metade permanentemente dia e outra metade permanentemente noite. A partir dessas constatações, qualquer esperança de colonização do nosso simpático satélite ficou inviável.

Ainda bem!  Acreditem, se houvesse o menor sinal de vida lá, a humanidade desenvolveria a exploração lunar. E com a exploração todos os recursos da Lua seriam subtraídos em proveito dos colonizadores. Faríamos com a Lua o que o que os grandes Reinos da Terra fizeram com suas províncias.

A ausência de sinais de vida na Lua a livrou da cobiça humana, impediu que o homem montasse base lá, construísse laboratórios, perfurasse seu solo, enterrasse tubos, registrasse posse do solo, erguesse condomínios, brigasse, guerreasse, lançasse bombas, plantasse minas na areia. A ausência de sinais de vida na Lua impediu que se formassem colônias espaciais exploradas e devolvidas depois aos seus verdadeiros proprietários, exauridas, fracassadas, contaminadas, perdidas para sempre.

A ausência de sinais de vida na Lua impediu que se formasse no espaço, repúblicas pobres e desprezadas que lutam, há séculos, para se reconstruírem da exploração sofrida, em cujo solo os expedicionários um dia desembarcaram e cuja riqueza, como a manchete da Folha de São Paulo disse, está no bolso dos colonizadores.  Nossa irmã do Céu teve mais sorte

Angelo Humberto Anccilotto  (Jul/2014)