LEGÍTIMA DEFESA DA HONRA

O que a idade nos traz de mais terrível não é a falta de memória, mas a falsa certeza das coisas. Já me ocorreu várias vezes eu ter absoluta certeza sobre determinado fato e as pessoas em volta me convencerem que o acontecimento não se deu exatamente do jeito que eu contei. Há cerca de 3 anos, por exemplo,  eu tinha certeza que meu filho chegara em casa com um CD de músicas gravado por um amigo dele e me entregara dizendo: “Pai, é para você. Pedi para gravar com as músicas que você gosta”. Guardei o disco em alguma gaveta e me esqueci dele. Tempos depois quando lhe perguntei se ele sabia onde eu havia posto o disco, fiquei surpreso com sua cara de espanto:

- Que disco?

- Aquele que você me deu.

- Eu?

- É.   Aquele que você mandou gravar com as minhas músicas preferidas...

- Pai, você está louco. Eu nunca gravei disco para você.

 

Como discordar da absoluta convicção de um filho de vinte e poucos anos em face da incerteza de um pai de quase sessenta, que sequer sabia onde havia colocado o disco? Por outro lado, por que diabos estariam tão nítidas na minha lembrança aquelas palavras dele me entregando o disco: “Pedi para gravar com as músicas que você gosta.”  Pois, alguns dias depois encontrei o tal disco e fui mostrar a ele, na esperança que ele me devolvesse a razão, mas para maior desgosto ainda ele arrematou: “Quem te deu esse disco foram os seus colegas de trabalho, no seu aniversário.” Vocês não sabem o quanto é dolorido ter certeza sobre coisas que nunca existiram.

Pois hoje de manhã, aqui numa pracinha em Barra Velha, eu estava admirando um pássaro que corria em pequenos saltos sobre a grama quando um casal, de aproximadamente 40 anos, chegou-se a mim e o homem me perguntou: “Que pássaro é este?” Respondi: “É um sabiá”. Ele riu e respondeu: “Sabiá, não. Eu conheço sabiá. Sabiá não é assim.” Respondi-lhe que existem sete espécies de sabiás e o que ele conhecia talvez fosse o sabiá laranjeira, mais comum em qualquer canto do Brasil e que aquele alí era um sabiá Tejo, mais fininho e com as penas mais claras do que os outros. A mulher se limitou a ouvir minha explicação, mas o homem riu de novo e foi embora sem me dar crédito algum.

O casal saiu e eu continuei olhando a ave na grama, recordando-me de que já vi muitos desses pássaros quando era criança. Havia muitos deles voando no meio do cafezal, pousados nos fios de arame das cercas de beira de estrada, nos canudos das folhas de mamoeiro, nas embaúbas da beira do brejo e me ensinaram que eles se chamavam Sabiá Tejo e, no entanto, nesta manhã, numa praça perto da praia, um homem ri da minha certeza. Para ele, aquilo não era sabiá coisa nenhuma.

Voltei para casa abatido, mal almocei, e quando minha mulher quis saber o que eu estava sentindo, disse a ela que sentia um grande medo das minhas lembranças. Medo de que as minhas mais remotas recordações fossem todas irreais e que aquele pássaro na praça fosse só uma alucinação ou mero embaralhamento de imagens na minha cabeça, igual aquele patético caso do CD. E se eu estivesse apenas confiando numa lembrança falsa? E se com o tempo minha mente associara aleatoriamente esse nome a um pássaro que na verdade eu nunca soube como se chamava? Foi quando Laura me aconselhou a recorrer ao São Google, o santo de todas as incertezas.

Pesquisei. Existe mesmo o Sabiá Tejo. E é o mesmo pássaro que eu vi passeando na grama horas antes. Está lá a ficha técnica dele para quem quiser conferir.  Fiquei tão feliz que voltei à mesa e fui almoçar de verdade. Eu não era mais um homem vulgar que inventava nomes de passarinhos só para se passar de entendido em ornitologia. Salvei a minha honra e com ela uma das mais belas memórias da infância.

Angelo Humberto Anccilotto (Ago/2015)