PACIENTE

Outro dia vi na televisão a entrevista de um médico que chamava os pacientes de clientes. Perguntado a respeito dessa terminologia moderna que ele usava para quem procura uma clínica de saúde, ele explicou que o certo é dizer cliente para a pessoa que procura tratamento, porque entre ela e o médico existe uma autêntica relação de prestação de serviço.

O médico tem razão. Ao pagar a consulta na clínica nós estamos comprando uma possível solução para a nossa doença. Mas, supondo que essa maneira correta de tratar o paciente já tivesse sido adotada no início do século passado e que todas as enfermeiras do Brasil aplicassem injeção nos clientes e que a moça da recepção do hospital nos informasse que o cliente do quarto 308 teve alta pela manhã, eu tenho a impressão que o médico da entrevista iria dizer que cliente era uma denominação antiga e não era a melhor forma de se referir à pessoa doente. Talvez ele preferisse dizer paciente.

O mundo dá não apenas voltas, mas também reviravoltas. E este é um tempo de contestação, de conceitos novos. Certos ou errados, pouco importa. O vencedor de hoje é aquele que quebra a tradição, que põe uma fórmula nova para o cálculo milenar, um ritmo novo para a canção que amamos, uma tinta nova nas paredes da casa que habitamos, uma palavra moderna no vocabulário que aprendemos e um atalho no caminho que desbravamos.     

Todo dia tem alguém querendo derrubar o nosso mundo para por outro no lugar. Batem forte nos nossos alicerces, sopram nosso humilde casebre como o lobo mau soprou o rancho dos três porquinhos, chamam de mentira as nossas verdades e transformam em defeitos as nossas virtudes.

Não tenho a mínima ideia de onde inventaram que uma pessoa que vai ao médico é paciente e até gosto que essa palavra seja substituída, mas o diabo é que cada vez que o médico dizia cliente eu sentia uma martelada no peito como se um invasor tentasse derrubar a minha casa. Acho que não me trataria num clínica moderna igual àquela, com todo conforto, onde o médico não comete atrasos. Habituei-me a entregar o cartão de convênio na recepção e aguardar a consulta num banco estofado, lendo uma revista do ano passado. Tenho muito mais cara de paciente do que de cliente.

Angelo Humberto Anccilotto (Jul/2015)