MINHAS CONTAS

Ando com um problema sério: não sei o que fazer com as minhas contas. Mas antes que se assustem, hei de dizer-lhes que já tive meus momentos de penúrias, sem saber o que fazer com as contas que ainda iam vencer. Mas trabalhei duro nos últimos quarenta anos, fiz horas extras, saldei com dignidade o que devia. O que hoje me atormenta são as contas que já paguei.  Sou uma pessoa naturalmente desconfiada e não dou ao banco o crédito de me debitar automaticamente na conta-corrente as dívidas que assumo junto a terceiros. Quando tentei o débito automático, num mês não me cobraram nada e no outro foi me cobrado em dobro. É certo que isso já faz quase vinte anos, mas minha desconfiança resiste ao tempo. Pago minhas contas na boca do caixa e trago o boleto autenticado para casa.

O que fazer com um boleto autenticado que comprova a quitação da parcela que eu devia? Guardá-lo, e um dia desapontar o credor caso ele venha me impor outra cobrança?  Jogá-lo no lixo e depois sofrer a humilhação do credor caso ele venha me cobrar de novo?

Na dúvida, guardo o boleto autenticado. Mas acontece que as cobranças são muitas. Outro dia saí de casa debaixo de chuva para pagar uma conta e quando retornei o porteiro do prédio me entregou outras três. Soltei um grito indignado: Eu saio de casa debaixo de chuva para pagar uma conta e quando volto você me entrega mais três? Assim, quem é que consegue viver em equilíbrio financeiro? Ele se desculpou como se a culpa fosse realmente dele.

 As contas pagas ocupam uma gaveta e continuam crescendo. Em pouco tempo ocuparão duas ou três. Em um ano ocuparão uma mala, um armário inteiro. Por quanto tempo devo mantê-las guardadas? Ouço dizer que acaso venham me cobrar na Justiça, o ônus da prova é do reclamante, isto é, quem diz que eu não paguei é que deve provar que eu não paguei. Mas como confiar na Justiça deste país?  É mais fácil quem roubou provar que não roubou do que alguém que paga suas contas em dia provar que elas estão pagas.

 Na dúvida, é melhor deixar acumular, encher gavetas, armários, criar traças no meio dos papéis. Ou não pagar nada e contratar um bom advogado. Este país não costuma acreditar na palavra dos homens corretos e diante de um tribunal, nossos juízes há muito deixaram de fazer justiça, apenas decidem segundo seus próprios critérios quem é honesto e quem é tapeador.

Tapeador é quem faz tapeação. Escrevo isso e prece que eu estou ouvindo meu pai dizer: "Não confie em fulano; é um tapeador!" Não sou tapeador, sou aquele que desacumula dinheiro no banco e acumula papeis honrados em casa. E tiro disso um razoável conforto para minha alma.

Angelo Humberto Anccilotto (Jun/2015)