A UNIVERSALIDADE DOS PARDAIS

Existem amigos que chegam à nossa vida pelo caminho mais torto possível. Vêm disfarçados de inimigos. Tenho um que se aproximou de mim tentando me roubar a namorada. Isso já tem quase quarenta anos, e esse triângulo amoroso não deu em nada. Virou um sexteto porque a cada um de nós, a mim, a ele e a ela juntou-se um outro amor e a vida foi em frente. Hoje rimos disso e eu aproveito para zombar de sua incompetência: Já faz quarenta anos e até hoje você não conseguiu conquistá-la – falo sem mágoa e sem maldade.

Pois assim também aconteceu com os pardais. Todos conhecem esses passarinhos rajados, primos dos tico-ticos, que andam sempre em bando. E o meu primeiro contato com um pardal foi exatamente com um bando deles. E da pior maneira possível. Um bando barulhento de cem ou duzentos, que vinha e pousava nos cachos de arroz e em minutos fazia o beneficiamento de um eito inteiro. Só que o grão beneficiado ia para a barriga dessas aves enquanto a palha se amontoava no chão. Nem a máquina do Baiano conseguia limpar tanto arroz em tão pouco tempo.  

Então o pardal surgiu na minha vida como um inimigo; aquele que me roubava o alimento. Era preciso escorraçá-lo do meio da roça de arroz. Era preciso armar espantalhos no meio do eito, bater latas, atirar de espingarda, de bodoque, de pedra lançada a mão mesmo. Fosse o que fosse, uma vez espantado, era preciso montar vigília para não deixá-lo voltar.

Cresci, nunca mais plantei arroz. O arroz que como hoje vem do Rio do Grande do Sul e não tenho a mínima ideia de como se espantam os pardais dos arrozais de lá. Depois de grande, por algum tempo ainda, eu os pardais nos olhávamos meio de viés. Não era bem o mesmo ódio dos tempos de criança, mas uma certa desconfiança que marcavam nossos encontros: que arrozal você estará destruindo agora, hein sua ave de rapina disfarçada? – pensava secretamente comigo mesmo, a ponto de procurar uma pedra em volta para ameaçá-lo.

Mas o pardal não se intimidou. Com o tempo passou a andar pelo meu quintal, catar migalhas de pão ou de pipoca. Cantar para mim eu não diria que cantou pois o pardal sabe apenas piar. Mas amansou-me o espirito a ponto de certa vez eu mesmo conter o ímpeto de um gato voraz que lhe armava o bote. Já não havia rancor entre nós. O meu arroz que ele comeu no passado não me faz falta agora e até compreendo que seu gesto foi de mero instinto de sobrevivência. Confesso também que isso me ajudou a entender melhor aquele versículo da Bíblia onde se diz para olharmos os lírios do campo e aves do céu que não plantam nem ceifam, mas jamais uma delas morreu de fome. Sem atacar nossos arrozais o pardal não viveria para contar a história. E afinal, eu também sobrevivi para contá-la.

Mas tenho encontrado pardais em todo canto do mundo. Muitas aves são típicas de certa região do planeta, poucas se adaptam em mais de um lugar, mas o pardal é universal. Em Praga, quando abri a veneziana do apartamento onde estava hospedado, um deles saltou e piou no galho de uma árvore rente a janela. Voltei a encontrá-lo depois em Nova Iorque e no Panamá, em Roma e em Paris, em Buenos Aires e na Patagônia. No inverno ou no verão, na chuva ou no sol, o pardal perambula pelo mundo e nos faz sentir menos desconhecidos em terras alheias. Estiveram comigo em Guaraçai e em São Paulo e recentemente quando me mudei para Santa Catarina, enquanto ajeitava o móveis dentro de casa, uma turma deles veio me dar as boas vindas, andando aos pulinhos pelo quintal, bicando uma semente de capim aqui, perseguindo um inseto ali, entre pios e voos curtinhos. Quando fui ver quem fazia tamanha algazarra, eles ficaram em silêncio e imóveis, até que um deles, como porta-voz do grupo, pôs-se a piar de novo. Tenho pecados demais nas costas e não posso pretender o dom de São Francisco de Assis, mas tive a impressão de ouvi-lo me perguntando: “Podemos brincar no seu quintal? Você ainda tem raiva de nós?”

Não, meus amiguinhos, minha raiva já passou há muito tempo. Podem brincar a vontade. Minha casa está às ordens e meu quintal é vosso. Apareçam quando quiserem.    

Ângelo Humberto Anccilotto (Mai/2015)