QUEM VIVER VERÁ

O que vou escrever não é politicamente correto e deve gerar protestos de uma parte da população, principalmente dos profissionais das áreas de alimentação e saúde, se é que alguém dessas áreas lê o que escrevo. Paciência! Tem coisa que se a gente que é pombo não fala, ninguém fala, como dizia aquele comercial de tevê.

Minha alimentação não é exemplo para ninguém. Amo a natureza e tenho por premissa preservar o verde, incluindo-se aí a alface, a couve, o agrião e outros gêneros não verdes como a beterraba e a cenoura, e para preservar o reino vegetal furto-me das saladas. Mas não sou exatamente um obstinado e de vez em quando acabo transgredindo meus princípios e  tempero alguma rúcula, algum brócolis, acelga ou tomate. Não me considero extravagante, apenas tenho certa inclinação para carnes e ovos. Minha esposa até zomba de mim e quando não pode jantar comigo liga e avisa: Olha, vou chegar mais tarde, vou comer alguma coisa por aqui mesmo; tem ovo na geladeira, tá?

Evito comer ovo na presença dela ou em público e reservo esse sublime  momento para as ocasiões em que estou sozinho. Ocasiões em que apesar da minha voz interior me alertar para os riscos do colesterol, cedo à tentação de apreciar dois ovos fritos com a gemas derretendo e amarelando o arroz.

São raros os prazeres da vida que se equiparam a este e não vou citar aqui delicias como costela com mandioca, bisteca com farofa ou linguiça com tutu. Deixa pra lá, não quero pensar nisso agora. Mas não é curioso que quando a gente está com fome esses pratos surgem de repente na nossa imaginação? Ou por acaso alguém, dez minutos antes do almoço, fecha os olhos e sonha com uma salada de tomate com pepino bem temperada?  Ou uma tigela de agrião com couve flor? Ou uma travessa de alfafa com grão-de-bico?

Ao convidar um amigo para almoçar em sua casa num fim de semana, acaso, para enchê-lo de expectativa, você diz: “Vais comer uma abobrinha que eu trouxe de Guaraçai que você nunca comeu na vida!” Ou você o estimula com uma oferta menos irrecusável: “Vou preparar uma lasanha à bolonhesa que você nunca comeu nem nas melhores cantinas italianas!” Imagine-se também você ligando para um amigo depois do expediente: “E aí, vamos tomar um suco de abacaxi com hortelã daqui a pouco? Conheço uma lanchonete ótima aqui perto, e lá eles preparam também um mamão com laranja divino!” Certamente seu argumento para arrancár o amigo da mesa de trabalho naquele momento é outro: “Vamos tomar um chope no Fim dos Tempos? Lá eles servem um provolone à milanesa, que é coisa do fim do mundo mesmo. E umas tirinhas de filé com catupiry que, meu Deus,  só de pensar já estou babando aqui!”

Domingo de noite, que tal uma xícara de chá com torrada? Ninguém fez nada o dia inteiro, então qual a razão de um jantar de mil calorias? Por que ligar para a pizzaria mais próxima e e pedir meia marguerita e meia calabresa acompanhada de uma coca-cola de dois litros?  E nas estradas? Horas e horas viajando, os olhos cansados daquele asfalto que treme à sua frente, de repente você vê emergir na beira do caminho um out door preso no alto de um morro anunciando um restaurante a 5 Km dali cuja ilustração trás quatro peças de picanha tostadas na brasa, elipticamente curvadas no espeto com uma generosa borda de gordura em cada uma delas. E aquilo faz as suas papilas degustativas soltarem salivas pela boca. O efeito no seu estômago seria o mesmo se no lugar do espeto eles anunciassem dois tomates bem vermelhos num prato salpicado de ervilhas verdinhas e algumas rodelas de cebola crua em volta?

Nosso cérebro está viciado e somos sempre vencidos pelo prazer da carne. Nossa geração se expõe a riscos desmedidos de entupimentos das artérias, de glicemia no sangue e de outros males que vem da mesa. No meu caso, em particular, culpo a medicina por isso.  Quando era criança, cada vez que minha mãe me levava ao posto de saúde da cidade era sempre a mesma recomendação:  “Dá mais carne para ele, faz ele comer mais ovos, beber mais leite...” É certo que eu que eu era pequeno e tinha músculos, ossos e neurônios para expandir, mas eu acostumei; agora não tem mais jeito.

No entanto, a geração que vem vindo atrás de nós já modificou bastante esse comportamento. A conscientização para hábitos saudáveis de alimentação começa a fazer diferença e a marcação cerrada da medicina contra o perigo do colesterol e da pressão sanguínea projeta um futuro onde todos acabarão morrendo com saúde. Os que sobreviverem aos Mac Donalds e aos Burger Kings da vida, certamente no futuro celebrarão suas datas marcantes à base de salada de grão de bico e suco de amora silvestre. Não pagarão menos do que pagamos pela nossa carne de hoje, porque afinal, no preço de um prato de restaurante o que menos pesa é a quantidade de proteína ou de carboidrato. O valor do prato depende do metal dos talheres, do tecido das toalhas da mesa, do uniforme dos garçons e sobretudo do nome do chef.

Mas, considerando que o ser humano é um eterno insatisfeito, que vive na busca de novidades, e que essa insatisfação atira-o a intermináveis pesquisas, a geração vegetariana não desfrutará por muito tempo desse sossego de consciência. A medicina futura certamente encontrará também graves riscos nas frutas e verduras assim como encontram hoje na picanha, no torresmo e na pizza. Não tardará muito e um estudioso levantará a questão e um novo tratado nutricional declarará que a alface, a couve, a rúcula e o almeirão possuem clorofila em excesso e isso prejudica os glóbulos vermelhos, que o agrião tem muito iodo e isso ataca o fígado e os rins, que o tomate e a cenoura possuem uma substância  até então desconhecida e essa substância ataca a visão e que o suco das frutas in natura pode prejudicar a fauna intestinal. E vão recomendar regimes e dietas alimentares, igualzinho ao que fazem  com a gente hoje.  Quem viver, verá.

Angelo Humberto Anccilotto (Out/2015)