A LONGA MORTE DE MICHAEL JACKSON

Na calçada em frente ao parque o menino, sem camisa, de bermuda e boné, trançava as pernas no ar e rodopiava na ponta dos pés, apoiando a mão embaixo do ventre. Não foi o único jovem que vimos repetindo esse gesto nos últimos dias.

Há dez dias que os jornais repetem a notícia. E as revistas semanais por duas edições seguidas estampam seu rosto na capa. No intervalo do trabalho, o assunto volta ao contexto; a morte de Michael Jackson não acaba mais. Passou pelo seu corpo, paralisando o oração e seguiu para as agências de notícias que, afoitas, buscam o último furo de reportagem. Chegou à delegacia, onde as autoridades tentam reunir os elementos da causa mortis. Bateu na porta das organizações farmacêuticas que debatem o livre arbítrio do paciente comprar seu remédio. Foi à sala dos advogados, que têm uma longa lista de reivindicações para averiguar, atravessou a casa fda família, arrolando ex-mulheres, sogras, irmã, pai, mãe e filhos em vastos processos judiciais. Os herdeiros se debatem e sonham com a fortuna e os credores fazem cálculos dos prejuízos. Ficou um rastro de confusão que vai muito além da distância entre o Instituto Médico Legal e o cemitério que receberá seu corpo.

A companhia funerária não sabe mais como organizar o velório. Promotores de eventos ficam cismando se cobram ingresso para o funeral ou se franqueiam ao público a última despedida. Agências de publicidade captam flagrantes para promover produtos do mercado da música. Emissoras de rádio tocam seus hits de cinco em cinco minutos. A indústria fonográfica comemora, as gravadoras explodem de alegria; a morte do artista lhes trouxe mais vida.

A camareira, a cozinheira, o porteiro do edifício, a recepcionista do hotel, o cabeleireiro, o garção, o figurinista, o músico da orquestra, o dentista, o dermatologista, toda essa gente anônima que movimenta a vida de repente sai da obscuridade e passa a interessar aos jornais e à televisão. Quem tocou em suas vestes, que subiu numa pedra para vê-lo passar, quem morou perto, quem viajou no mesmo avião, quem engraxou seus sapatos, todo esse povo tornou-se bem-aventurado pela misericórdia da mídia.

Na loja de camisas, na fila do banco, no saguão do aeroporto, nas suítes dos motéis, entre o cigarro e o vinho, em todo canto da Terra que se possa imaginar há sempre alguém comentando o fenômeno musical e seu jeito esquisito de viver, prolongando ainda mais a interminável morte do astro. E como astro, ele prossegue brilhando, tal como estrelas mortas no firmamento cuja luz ainda viaja no tempo e podemos vê-la daqui de baixo.

O que vemos neste momento é uma honraria desmedida, uma homenagem superlativa a quem cujo único legado a este mundo (salvo revelações de suas futuras biografias), foi deixar um ritmo de dança segurando a genitália. Gesto feio, obsceno, que o público jovem imortalizou.

Hoje é 5 de julho,  o sepultamento irá ocorrer dentro de dois ou três dias. Quando o jornal circular em Guaraçai o fato (supõe-se) estará consumado. O longo espetáculo da morte de Michael Jackson terá chegado ao fim e o leitor não terá mais interesse nele depois dessa maçante maratona de notícias. Mas mesmo assim é bom ficar de olho na televisão. Vai que algum dia desses um fã levanta cedinho para visitar seu túmulo e o encontre vazio, com a tampa removida e um anjo sentado sobre o mármore...

Exagerei? Vocês não sabem do que a mídia é capaz.   

 

Angelo Humberto Anccilotto (05/julho/2009)