INFIDELIDADE

O diretor de cinema Glauber Rocha definia sua profissão de cineasta como um andarilho com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça.  Em tempos de YouTube, Facebook, Tweeter, Instagram, dispensa-se a ideia. Basta a câmera na mão. Com ela é possível apanhar qualquer flagrante que a vida ofereça e compartilhar na rede social para se tornar uma celebridade instantânea. E em tempos de tecnologia farta e barata, câmera não é coisa que falte na mão de ninguém.

Menos na minha. Sou uma espécie de ermitão do século XXI. Por todo lugar que ando só vejo gente “teclando” (devo mesmo manter entre aspas?) nos celulares, nos Ipads, Iphones, notes, lendo e postando mensagens. Ninguém mais bebe um copo d’água sem que este ato magnifico e inusitado seja compartilhado no mundo virtual. Só eu ando sem aparelho algum, apenas com um mísero e ultrapassado telefone móvel que nem sei usar direito e que nunca toca. E quando toca nunca é num momento apropriado, como aconteceu na semana passada quando um amigo de Guaraçai quis falar comigo e eu quis atende-lo sem dizer que estava no trânsito indo da Lapa para o centro de São Paulo, e então a ligação ficou truncada e nos despedimos sem entender direito sobre o que conversamos.

Mas seu eu andasse com uma câmera na mão teria filmado, outro dia, um ato de infidelidade às margens do lago do Ibirapuera.  Um casal se paquerava furtivamente. Ela toda de branco, ele de preto, com um topete vermelho. Caminhavam á minha frente, encostavam-se as faces, murmuravam coisas um no ouvido do outro. Tinha hora que ela se afastava, meio envergonhada e arrulhava qualquer coisa mais alto como se estivesse na bronca ou quisesse disfarçar o romance.  Ele se irritava também, corria um pouco na frente, enfiava a cabeça no lago e depois chacoalhava o topete. O fato é que logo em seguida estavam juntos de novo, um arrastando a asa para o outro.

Aquele flerte matinal me chamou a atenção e segui observando os dois. Houve momentos de carinhos explícitos, de muita ternura ente eles, e eu fiquei imaginando quantos encontros já teriam acontecido. Seria o primeiro? O décimo? Nem se davam conta de quantos já tiveram?  E como tudo aconteceu? Foi por acaso? Descobriram-se em alguma reunião social?  Foi amor à primeira vista? Marcaram aquele encontro às margens do lago? Estavam seguros ali, longe da família e dos conhecidos?

Se me perguntarem se eu conheço essas criaturas serei obrigado a dizer que não. Nunca as vi antes. Então, como posso afirmar com tanta convicção que era um caso de infidelidade? Na verdade não sei, apenas suponho, porque me consta que mesmo em tempos de amores híbridos e paixões transgênicas, os pássaros compõem  famílias apenas dentro da mesma espécie, e ela era um pomba e ele um marreco, um frango d’água, desses que alternam a vida ora na lagoa, ora na terra.

Mesmo assim, poderia ser amor de verdade, isto é, amor tradicional. Podia ser que ambos fossem livres e não estariam traindo a ninguém. Mas suspeitei que fosse um caso de infidelidade porque quando dei a volta no lago e cheguei à outra margem uma pobre marrequinha triste e solitária buscava com os olhos alguma coisa distante. Tive a impressão que era ao marreco infiel que aquele olhar aflito queria avistar, embora me parecesse também que ela não tinha muita certeza se queria mesmo ver aquilo que procurava.

Angelo Humberto Ancilotto (Mai/2013)