FORÇA DE VONTADE

Antigamente as pessoas quebravam a perna, iam para o hospital em seguida para fundir o gesso e depois permaneciam 40 dias deitadas ou sentadas dentro de casa. Quando uma daquelas crianças irrequietas - hiperativas, como se diz hoje – desaparecia da rua, já vinha logo a suspeita: deve ter quebrado a perna. Hoje, quando as pessoas engessam a perna (e não é mais preciso quebrá-la pra engessar, basta uma torção no tornozelo ou uma fissura no músculo - coisas que antigamente se curava com uma compressa de erva santa-maria - que logo a perna fica imobilizada por gesso ou por uma bota de material rígido), mas, como eu ia dizendo, hoje quando as pessoas engessam a perna, a primeira coisa que fazem quando deixam o hospital é arrumar uma cadeira motorizada e ir ao shopping exibirem a perna imobilizada. E passam por nós com certo orgulho, olhando-nos com superioridade: “Viu?  estou com a perna engessada, mas mão me rendo, não fico em casa; tenho força de vontade...”  

É bom que tratem os nossos ossos quebrados ou os nossos tendões rompidos com todo cuidado afim de que eles se restabeleçam rapidamente sem sequelas e possamos usufruí-los do mesmo jeito de antes da fratura. Meu pai caiu da cadeira quando era criança, quebrou o nariz. Meu avô disse que ia sarar sozinho. Sarou, mas ficou torto. Então, desfrutemos do bem-estar pelo que a medicina hoje nos proporciona de melhor para a nossa saúde e para a nossa estética.

Mas, não sei por que razão, ela não pôde desfrutar de melhoramento nenhum para sua recuperação.  Já faz mais de um ano e anda mancando. Ela, no caso, é uma cadela, quem quiser vê-la (ou buscar provas de que falo mesmo a verdade) é só seguir pela Rua Nossa Senhora Aparecida e entrar na José de Oliveira Mendes. Ela costuma andar pela calçada, logo na esquina. Deve pertencer a alguma família dali, mas não sei exatamente a qual, porque cachorro sem pedigree é como andarilho de rua, a gente nunca sabe de onde vem e para onde vai. Ela anda mancando sobre três patas, as duas traseiras e apenas uma dianteira. A outra pata da frente, a esquerda, fica pendurada sem tocar o solo. De pulinho em pulinho ela segue os outros cachorros, acompanha as crianças, entra e sai dos quintais, afugenta os gatos que passam, desce a rua, sobe de volta.

Quando a vi andando com dificuldade pela primeira vez, há cerca de seis meses, achei que tinha acabado de se machucar, mas agora sei que a pata quebrada “sarou sozinha” ou não sarou, apenas colou o osso fora do lugar o que lhe causa muita dor acaso a pata venha tocar o solo, deixando-lhe essa limitação física que a faz andar  devagarinho com esforço que dá pena de ver.  

Pena? O sofrimento alheio, mesmo os dos animais, nos põe comovidos, mas há nesta cachorra um fibra admirável. Ela já esteve prenhe, já criou e amamentou filhotes, mesmo com uma pata no ar, e certamente terá outras crias, amamentará outros filhotes, descerá e subirá a rua milhares de vezes ainda. E quando a vejo passando na calçada de cabecinha baixa, sinto em seus olhos tristes todo o desejo de superação, seu orgulho humilde de não ter se rendido às forças más do seu destino. Sinto pena, mas também sinto orgulho de sua força de vontade.

Angelo Humberto Anccilotto (Set/2015)