SALVO PELO GONGO

SALVO PELO GONGO

Aconteceu em 1977, meu último ano de Guaraçai. Naquele tempo as aulas do Colégio Comercial terminavam às dez ou dez e meia da noite, conforme o calendário e isso não queria dizer que nos púnhamos a caminho de casa tão logo batesse o sino de encerramento. Existia vida na cidade depois das dez da noite, gente no bares, cinema às quartas-feiras e sempre um grupinho conversando nas esquinas: éramos nós, com os cadernos e livros ainda debaixo dos baços.  Não tínhamos horário fixo para chegar em casa; onze horas, meia noite, às vezes já na madrugada densa. Detestávamos a rotina e a exatidão das horas.

Eu andava três quilômetros dentro da noite escura até chegar em casa. Habituara-me a essa marcha noturna e ela me dava prazer. O céu carregado de estrelas, vez por outra uma se desprendia da abóbada e se aventurava no espaço desaparecendo em seguida nos profundos mistérios da noite. A silhueta das árvores e dos animais perto do caminho e a brisa agradável estimulavam-me a andar sozinho no escuro, sem temer ladrões e criminosos, completando a mais pura sensação de liberdade que se pode ter. Sensação que foi desaparecendo com o tempo, mas não vamos falar dessas coisas.

A escuridão costumava me pregar alguns sustos, como por exemplo, numa noite que chovia e um galho de mamona tombado parecia, de longe, um homem de chapéu parado na estrada. Vultos em movimento não me assustavam, mas estáticos, como o galho de mamona, era de arrepiar os cabelos. Em outra oportunidade foi uma matilha de buldogs do Sinsei que vinha ao meu encontro. Contei cinco cachorros, todos com cara de mau, enquanto saía do caminho e pegava um desvio, indo parar num lamaçal onde atolei os sapatos e as meias até a canela. Protegido dos cachorros e com os pés encharcados, no limiar da meia-noite, pus-me a pensar que estranha aventura era essa vida da gente. Quantas situações patéticas como aquela eu ainda iria viver?   

Mas o meu maior susto ocorreu quando numa noite sem nenhum luar, nas imediações da propriedade que naquele tempo era da família Néspoli, uma voz por trás de um eucalipto me perguntou: Que hora que é? Tenho até hoje essa pergunta nos ouvidos, que soou entre as árvores sem que eu soubesse quem estava falando. Naquele tempo eu andava com um relógio Orient, de vidro escuro, e por mais que tentasse descobrir as horas não chegava sequer a enxergar os números, quanto mais os ponteiros. Para ser franco eu não sabia se olhava para o pulso ou para o local de onde viera o som. E como eu me demorasse a responder a voz insistiu: Que hora que é?

Apesar do medo, mantive o estado racional. Se uma voz falava comigo era porque ali existia uma pessoa de carne de osso em pleno gozo da vida. Nunca acreditei em vozes do outro mundo. Mas  eu não conseguia ver as horas no relógio de fundo preto e imaginei que o melhor seria correr até ganhar uma distância segura e depois olhar para trás para ver se podia descobrir quem desejava saber as horas. Mas o tempo conspirou a meu favor. Quase junto à reiteração da pergunta, o relógio da igreja deu uma pancada e como um certo tempo antes, ainda lá na rua, eu ouvira as onze badaladas, respondi num solavanco, com a voz tremida: São onze e meia. Abatido pelo susto, o gongo do relógio da matriz viera salvar-me do nocaute.

O homem saiu de trás do eucalipto e me agradeceu. Quando consegui reconhecê-lo, falei meio em tom de represália: Clemente, Clemente, o que você está fazendo aí a essa hora? Ele respondeu: Nada! E com esse pequeno dialogo me pus a caminhar de novo, enquanto os pelos dos braços começavam a assentar na pele de novo.

Eu me lembrei disso porque no mês passado, quando fui a Guaraçai, tornei a ver o Clemente na rua. Eu não o via desde aquela noite de 1977. Ele costumava andar pelas estradas sozinho, e talvez como eu, também apreciasse a noite. Não se pode dizer que éramos notívagos  irretratáveis mas sentíamos prazer em colher no rosto aquela brisa leve que balançava as folhas, como se elas se curvassem reverenciando a nossa passagem. Era um tempo bom em que as pessoas não se temiam e até mesmo a presença de uma delas num caminho escuro nos transmitia mais segurança. Era um tempo em que éramos mais semelhantes.    

Angelo Humberto Anccilotto (Ago/2010)