ANDRAUS

Chego para o trabalho na segunda-feira com uma preocupação extra na agenda: o texto para o jornal. Não o tenho; não encontrei tema algum. Atrás de mim  a persiana está aberta; alguém deixou, por esquecimento ou de propósito,  a minha mesa exposta à parca luz dessa manhã, em que o céu oscila entre nuvens e raios tímidos de sol. Vou à janela olhar a cidade. A janela dá para a face oeste da cidade e se não houvesse edifícios, se a terra fosse plana, sem vales e montanhas e se os olhos humanos alcançassem longas distâncias, eu enxergaria, lá bem longe, no fim do Estado de São Paulo, a cidade de Guaraçai, quando muitos já a dariam como terras do Mato Grosso do Sul (é preciso dizer do Sul, porque é assim que é – a presidente Dilma levou vaia em Campo Grande porque se referiu à cidade apenas como capital do Mato Grosso). Mas quem somos nós, com a nossa limitada capacidade de enxergar? Temos que nos dar por satisfeitos quanto conseguimos avistar quinhentos metros na nossa frente.      

E nesses quinhentos metros que avisto à frente, existe um edifício pintado predominantemente de azul e branco, com uma fachada na cor cinza. Não é bonito, mas se sobressai pela altura. Fica na Avenida São João, esquina com a Rua Pedro Américo, bem perto da Rua Aurora, região desvalorizada de São Paulo, vizinha da Cracolândia, de onde os transeuntes e os comerciantes fogem mal o sol se põe. Mais adiante vem o Minhocão e toma a Avenida São João por cima, até a Barra Funda, deixando embaixo um melancólico dormitório de indigentes. Uma funcionária de vinte e poucos anos se aproxima e pergunta o que estou olhando.

- O Andraus – respondo.

- Qual é ele?

- Aquele ali – e aponto com o dedo.

É fácil identificar o Andraus. Com 115 metros de altura, ele desponta entre os prédios vizinhos. Sua construção foi concluída em 1962 e já abrigou a sede de grandes corporações industriais como a Siemens  e a Henkel. Em São Paulo não há muitos edifícios que ultrapassam quarenta andares e ele, com trinta e dois, acaba sendo referência na região. A moça olha um pouco e depois sai. Com vinte e poucos anos, não deve saber muita coisa sobre ele nem guardar recordação nenhuma. Fico um pouco mais na janela a observá-lo, mas não vejo exatamente o edifício de agora. No seu lugar enxergo aquece que numa tarde de fevereiro de 1972 ardeu em chamas. Sem querer vejo antigas imagens de bombeiros se esforçando para levar a magirus até o topo, helicópteros tentando se aproximar para içar aqueles que se aglomeravam no terraço. E há entre essas imagens o repentino salto de um homem que se atira em desespero do topo até a calçada.

Tivemos muitos contatos com incêndios naqueles tempos. Em 1974 a tragédia se repetiu ainda mais forte no Joelma e em 1975 o cinema nos mandou o Inferno na Torre. Muitos acharam que Hollywood se “inspirara” nos nossos desastres para produzir o filme, mas na verdade era um protesto contra as megaconstruções dos Estados Unidos e o pouco rigor na qualidade do material empregado nas obras.

Fecho a cortina e volto ao trabalho com a sensação de que acabo de desligar a televisão. As vagas lembranças do Andraus hoje parecem ficção.  Há uma breve, passageira ilusão de que aquelas pessoas aglomeradas na cobertura, entre chamas e fumaça, fossem apenas artistas figurantes em cena e que o homem se atirou do terraço para fugir do fogo não passasse  de um boneco de pano lançado do alto para o efeitos especiais da filmagem. Infelizmente sabemos que não eram.     

Angelo Humberto Anccilotto (Mai/2013)