SONHO HUMILDE DE PESCADOR

Eu poderia me inscrever numa escola de caça submarina, frequentar os treinamentos por seis meses ou um ano, adquirir os equipamentos (os necessários e os recomendáveis) e me aventurar em Fernando de Noronha ou outro belo recanto do litoral brasileiro e, dentro das águas profundas, no meio da fauna subaquática, perseguir cardumes exóticos ou feras marinhas numa aventura audaciosa de lazer refinado.   

Poderia também, juntamente com alguns amigos, alugar um barco e entrar no mar, balançando ao sabor das ondas, em busca de espécies maiores e de carne mais sofisticada. Quando cansado e tonto de vigiar a bóia da linha, sentaria no convés e apreciaria as águas em seus movimentos verde-azulados espumantes, bebendo um uísque, ouvindo sossegadamente o tilintar do gelo na borda do copo, pensando que, apesar de todo o sal que o mar oferece, a vida é doce.

Poderia, ainda, rumar para o Pantanal ou para Amazônia e, de dentro de um bote confortável, lutar insanamente com pintados, dourados, jaús e tucunarés até trazê-los a bordo, exaustos, na ponta de um anzol. Poderia devolvê-los à água, em seguida, se fosse pesca esportiva ou providenciar o congelamento da carne, se fosse para consumo.

Poder, eu poderia. Mas não seriam exatamente os tipos de pescaria que me trariam orgulho ou alguma paz de espírito. Por alguma inexplicável razão que faz o homem na corrente da vida prender-se em algum elo do passado e continuar banhando-se nas águas da infância, meu desejo é pescar num rio pequeno. Nem mesmo o Tietê ou o Paraná, com as margens oscilando entre mata densa e capim rasteiro, me desperta algum desejo. Penso numa pescaria mais rude, em um rio menor, um simples córrego, um fio de água corrente entre açores e barrancos argilosos, mas que tenha poços fundos onde se escondam piaus e mandis, e que também alterne águas barrentas para bagres e traíras e correntezas cristalinas para os lambaris.

 Assim eu queria a minha pescaria. Chegar ao rio logo depois do almoço, tendo almoçado cedo como se almoça na roça, depois de caminhar no meio dos pastos pelas trilhas que o gado deixa na grama, passando entre os fios de arame das cercas que dividem os sítios, com um enxadão e um balde na mão para extrair minhocas de um brejo qualquer que antecede o córrego. Um embornal no ombro contendo uma caixa de madeira ou de acrílico com anzol, linha, chumbada e fieira, isolados em quadrantes divisórios que preserva e realça a organização do pescador. Na mão, uma ou duas varas de bambu ou taboca ainda sem linha e anzol. Completando o acervo, um covo entreliçado em malha miúda de arame fino flexível para depositar os peixes que se vai pescando ao longo do dia.

Isso era o que me bastava. Bem, não exatamente. Uma garrafa de cachaça também, porque ninguém é de ferro e de vez em quando, entre o piar de um nhambu no pasto e uma ferroada de pernilongo na dobra mais gorda do pescoço, um trago comportado cai muito bem na garganta. Descuidar-se por um momento e escorregar no barranco, um pé afundando na água, molhando a botina, enquanto o outro sapateia para se livrar do atoleiro. Torpel involuntário à margem do rio que assusta os peixes, necessitando de mais farelo na água para trazê-los de volta.

Passar o dia assim, repondo sucessivamente a isca roubada num instante de distração ou por uma fisgada mal feita. Vez por outra, porém, um deles subiria se debatendo no anzol. E como nem tudo é festa na beira do rio, constatar desolado que a linha enroscou na galharia tombada. Puxar com paciência a princípio, porém sem êxito, apelando para a ignorância em seguida, arrebentando tudo num tranco brusco, perdendo linha, anzol e chumbada. Sentir-se mirado por uma cobra que, de dentro da água, parada a sua frente fita-o por alguns instantes. Olhando em torno meio assustado, um pedaço de galho seco lhe devolve a calma: se ela vier, arrebento a cabeça dela com este pau.

No fim da tarde voltar para casa com sol se pondo, botina encharcada, a calça embarreada, as unhas pretas de terra, as mãos cheirando a lama de rio, o embornal no ombro, todo o fruto da pescaria dentro da pequena jaula de arame (cinco ou seis, não muito grandes). No portão de casa a esposa a fulminá-lo com os olhos e você se apressando em responder mesmo sem ela ter perguntado: “Pode deixar que eu mesmo vou limpá-los”. Ela saindo, te olhando de viés com aquele olhar de te desconjuro! e seu filho correndo ao seu  encontro, tomando o covo da sua mão, esticando o braço lá dentro, um peixe ainda vivo se assusta e se debate, e ele exclamando eufórico: Nossa pai, que peixão! Aí você conta para ele, meio sério e meio rindo, que o grande mesmo você deixou escapar. Você o tirou da água, mas ele era muito grande, desse tamanho, o anzol pequeno, o peixe caiu no barranco, você saltou sobre ele, mas não teve jeito. O bicho caiu na água outra vez e sumiu. Ele riria entusiasmado e com brilho nos olhos. Diria que da próxima vez irá com você e que nenhum peixe vai escapar...

Assim eu queria a minha pescaria, mas, pobre de mim, não sou pescador.

Angelo Humberto Anccilotto (Fev/2007)