LEMBRANÇAS DE UM COELHO

Na volta do trabalho, passo no pequeno mercado da rua para comprar alguma coisa que está faltando (ou que imaginamos que nos faça falta) em casa. No fundo do mercado tem uma banca de frutas e nessa banca de frutas há uma caixa de tangerinas que me parece muito saudáveis. Escolho meia dúzia delas e me dirijo ao caixa com outros pacotes apanhados nas prateleiras. Ao colocar as frutas na balança, a moça do caixa me pergunta: Que mexerica é essa? Respondo que é tangerina. Ela não se conforma, puxa uma lista com o código dos produtos que o supermercado vende, corre o dedo pela lista e aponta: É mexerica cravo. Protesto: É tangerina. Ela chama a gerente e a gerente vem e dá o veredito final. É mexerica cravo!

Nasci, praticamente, debaixo de um pé de tangerina, passei boa parte da infância nos galhos de um pé de tangerina, apanhei centenas, talvez milhares delas, sei que as melhores são aquelas que deixam um tufo de casca no ramo quando a gente puxa para arrancá-las do pé, conheço uma tangerina a quilômetros de distância, mas aceito a sentença da gerente do supermercado e pago pelas tangerinas o preço de mexerica cravo e vou para casa.

E ocorre-me lembrar que antigamente, muito antigamente, havia no rumo da janela do meu quarto um pé de tangerina ponkan – e eu confesso que não sei escrever direito essa espécie de fruta; não sei se é ponkan, ou poukan, ou poncan, ou talvez poncã. Mas sei que havia um pé delas bem na direção da janela do meu quarto e toda manhã ela vinha apanhar ramas de batata para tratar o coelho que a família mantinha em casa. Então eu percebia a sua chegada através do pé do ponkan. Quase que de uma forma diáfana a sua imagem atravessava as folhas verdes e o conjunto de ramos e eu ficava olhando o jeito de caminhar, depois ela contornava o arbusto e apanhava sempre as ramas mais tenras e ia embora. Algumas vezes ela olhava para a janela e ao me ver baixava de novo os olhos e continuava a sua obrigação matinal.     

Ela vinha sempre com o rosto lavado e o cabelo recém penteado e por mais de uma vez eu tive vontade de ir lá e perguntar se ao prazer de colher ramas de batata para o coelho ela também somava uma gotinha de encanto de me ver ali na janela. Nunca tive coragem de fazer isso porque tinha medo que ela respondesse que não. Que era apenas uma tarefa que o pai lhe determinara e que ela nem percebia que eu a observava. Eu não estaria preparado para tão dolorosa negativa. Preferi manter a ilusão de que o coelho era só um disfarce e que o motivo verdadeiro da sua visita matinal era a minha presença na janela. Depois eu saía de casa, passava na frente do quintal da casa dela e via o coelho comendo as folhas e eu seguia meu caminho com a certeza de que tudo no mundo estava em seu lugar e todos os bichos da Terra estavam bem alimentados.

Isso faz tempo, muito tempo. E se acaso eu a encontrasse hoje, eu teria o mesmo receio de fazer aquela pergunta. Só que o meu medo de hoje é bem diferente daquele. Eu não me importaria nem um pouco se ela risse de mim e dissesse friamente que era mera presunção minha supor que ela ia ao pomar apanhar ramas de batatas só para me ver. Hoje eu sei que poderia suportar sem esforço essa dolorosa negação. Mas o meu medo agora é que, neste mundo em que as coisas mudam tanto, que as pessoas que conhecemos um dia se tornam outras, o meu medo é de que ela respondesse, como a renegar uma das mais belas recordações que carrego, que não lembra de pé de ponkan nenhum e que nunca teve um coelho em casa.

Ângelo Humberto Anccilotto (Ago/2015)