CANETAS PERDIDAS

Houve um tempo em que os recursos das pessoas eram, de maneira geral, muito escassos. Tempos em que uma caneta esferográfica, por exemplo, custava uma fortuna. Não pelo seu preço em si, mas pela falta de dinheiro preponderante no bolso dos pais de família. As de tinta vermelha, então, eram luxo, extravagância , só os professores tinham para corrigir nossos cadernos com aqueles longos cês ou longos xis, conforme a nossa performance nas questões respondidas. Chegava o tempo de as crianças começarem a escrever com caneta na escola e nem sempre os pais podiam fazer despesas no bazar mais próximo para suprir o material escolar dos filhos.  Algumas seguiam escrevendo com lápis que era mais barato.   

A Bic persistiu na produção em escala e foi mudando isso. As Pilot (que a gente chamava de Piloto), Parker e Sheaffer eram coisas de grã-finos, só usadas em escritórios ou bancos e por fazendeiros na hora de assinarem o cheque. A Bic revolucionou a arte de escrever colocando um tubinho de tinta (tinta seca como dizíamos) dentro de outro tubo de acrílico, foi ganhando mercado e deixando para trás as velhas canetas-tinteiros, que passaram a aparecer somente nas aulas de gramática como exemplo de substantivos compostos.

A passagem do lápis para caneta era um momento de extrema importância na vida dos alunos, que assumiam certa superioridade perante os irmãos ou colegas mais novos: “não sou mais criança, já escrevo a tinta!” O pai, então, olhava com orgulho as primeiras frases, meio borradas e pensava: “já é um homem; já escreve com caneta!” E assim, escrever a tinta remetia-nos a um estagio superior onde os erros cometidos não podiam mais ser apagados e isso nos trazia mais responsabilidades e nos tornava mais compenetrados.

E ocorria muitas vezes a gente encontrar uma caneta esferográfica caída no chão. Meio-dia, saída da escola, todo mundo embolado, bolsas precárias para guardar o material, de couro ou de pano, descosturadas, que muitas vezes vinham passando de irmão para irmão na linha do tempo, pai sem dinheiro para comprar estojo, a caneta vazava por um furo da bolsa e caía na areia. Sim, areia. Quem vê as portas das escolas hoje cobertas de asfaltos, calçadas e pátios revestidos de cimento, nem sonha que um dia tudo isso já foi terra batida. E as canetas caiam na areia e alguma criança no meio daquele universo de congas brancas ou azul-marinho, acabava por encontrá-la.

Como saber quem perdeu? Deveríamos catar do chão e sair perguntando  a quem pertencia?  Tínhamos o direito de ficar com ela? Achado não é roubado. Algumas ainda novinhas com tampa e tudo. O fato é que às vezes ficávamos com elas, mas um ponta de remorso atrapalhava o nosso sono de noite: quem perdeu amanhã não vai conseguir escrever.  Terá outra em casa, ou vai levar uma surra da mãe quando contar que perdeu?

Iniciei esta crônica sem saber ao certo aonde o pensamento iria me levar, e acabei descobrindo que as canetas, as simples canetas esferográficas, já ocuparam lugar de destaques em nossas vidas, quando deixávamos de ser simples alunos primários para ser honrosamente alunos que escreviam com caneta. E aquelas que encontrávamos caídas no chão foram para nós um rigoroso teste de caráter. Não era fácil dormir de noite sabendo que apossamos indebitamente de um objeto “valioso” que alguém, inadvertidamente, deixou cair da bolsa.

Eu sei que é cada vez menor o número de pessoas que se identificam nessas histórias antigas  e a maioria acha que o que escrevo é pura ficção, temperada com um dose de drama e outra de exagero. Mas lhes asseguro que meu testemunho perante a história é verdadeiro. Já sofremos por uma caneta. Sofremos para poder adquiri-las. Sofríamos ao perdê-las e sofríamos, talvez ainda mais, quando achávamos uma no chão.   

Angelo Humberto Anccilotto (mar/2008)