LUPINOS

Plantar flores é uma ação gratificante. Principalmente para quem não sabe fazer direito como eu.  Aliás, o leitor me perdoe, porque vou usar este parágrafo para dizer que tenho muito orgulho das coisas que não sei fazer. Por exemplo, não sei jogar tênis. Não apenas não sei jogar como não conheço as regras desse jogo, e isso me dá um prazer grandioso quando assisto à uma competição. A bola atravessando a quadra adversária, o jogador se atirando para rebater, devolvendo a bola do outro lado da rede, o rali se prolongando, o esforço de cada um em arremessar ou defender o  seu campo da maneira que puder, a gente se deixa levar pela emoção dos lances e vibra sem a menor ideia  de quem estaria marcando o ponto, quando a bola finalmente toca o solo.  E por não entender o jogo, não me perco em críticas ou em comentários óbvios e fúteis. Não sei quem atacou bem e quem errou a defesa, apenas espero em silêncio e com emoção o próximo saque.   Não é a mesma coisa no futebol. Num jogo de futebol, esporte que conheço a técnica, as regras e as estratégias, me desespero a cada lance errado. O prazer é consumido pela crítica aos jogadores, ao técnico, ao juiz e aos próprios narradores da televisão. Conhecer nos faz sofrer.

Então, bancar o jardineiro amador é vibrar com a semente que nasce, mesmo sem saber se segui corretamente as regras do plantio; é chegar em casa quase ao anoitecer e olhar com apreensão se os pequenos  brotos não secaram com o sol quente da tarde e pensar se é correto deixá-los expostos ao tempo ou se devo providenciar uma cobertura para abriga-los do calor e da chuva.  É levantar de manhã e ir ver se as mudas replantadas estão secas ou murchas. É imaginar se devo aplicar fertilizante, se devo molhar uma ou duas vezes por dia; é não ter certeza de nada mas ver aos poucos  o trabalho se recompensando pelas plantas que crescem e um dia florescem, como que por milagre. A flor que cresce pelas mãos do jardineiro amador é como a esperança que se fortalece no meio das incertezas.  

E aconteceu de eu trazer do extremo sul da Patagônia um pacote de sementes identificadas no envelope como lupinos. Não sei se há uma tradução para o português, se aqui no Brasil chamarão essa flor de lupínios ou coisa parecida.  Mas é comum encontrar essa planta nas  praças e nos quintais das casas de Punta Arenas ou de Ushuaia. Elas florescem multicoloridamente sob  o inverno intenso do extremo sul do planeta. Tentar o cultivo das sementes no Brasil, ainda que no sul do país onde passei a morar recentemente,  não é garantia nenhuma de vê-las florescer.

E como jardineiro aprendiz sequer soube avaliar quantas sementes continha o envelope que comprei num mercado do porto. Imaginei que fossem ao menos 50, mas constatei com certa dor no coração que eram apenas 10. Por que não comprei uns quatro ou cinco pacotes?  E das 10 sementes lançadas à terra nasceram apenas 6. Eu tinha então um vaso com  seis filetes  de uma  planta que cresce debaixo de uma temperatura máxima de dez graus centigrados e que eu tentava adaptar para uma temperatura  média de 30 graus entre janeiro e março. Minha expectativa era que viessem florescer em junho, quando o inverno chegasse, e nos excessivos cuidados que dediquei aos tenros caules que esboçavam crescer, tive a paciência de regá-los com água gelada e protegê-los com uma tela de tecido para que nenhum inseto ou praga viesse atacá-los. Era isso mesmo que eu deveria fazer?  Não sei. E acabei por protegê-los demasiadamente esquecendo que toda planta, mesmo as dos gelo, precisam de sol.

Quando me dei conta, os pequenos troncos já enfolhados começaram a morrer. Inútil buscar ajuda na vizinhança. Ninguém tinha em casa a mesma espécie de flor, ninguém saberia dizer o que fazer.   Eu perdia as minhas plantinhas na proporção de uma por semana e temi que quando o inverno chegasse, não adiantaria mais nada, todas estariam mortas. Eu tentava me consolar como se nunca as tivesse plantado, que fora só uma aventura que não vingou. Paciência! São flores do gelo, não iam dar certo aqui. Mas uma das plantas, bem mais forte que as companheiras, foi resistindo ao calor e quando a removi para um local encalorado do quintal ela se fortaleceu e foi a única que sobrou.  Chegaria à idade adulta? Floresceria? Então, em junho, sob  as noites frias de Santa Catarina, pequenos cachos foram se formando na extremidade dos ramos e o único pé de lupinos que havia sobrevivido enfim floresceu num tom azul-violeta.

Não sei se algum leitor já passou por essa experiência de ver uma planta rara, trazida de longe, tratada com todo cuidado, as vezes já dada como morta, florescer na frente da sua casa. Aos que ainda não trataram de praticar essa arte eu recomendo que tentem. Não precisa ser uma flor rara, basta ser uma flor da qual você não sabe exatamente como cuidar. É um grande pecado o que vou dizer agora, mas atirar uma semente na terra e colher um flor algum tempo depois nos torna um pouco Deus.

 

E o melhor de tudo é que dos vários cachos que floresceram, agora que a temperatura começou se elevar de novo, começam a cair as flores ficando nos ramos algumas vagens, surpreendentemente carregadas de sementes. Tantas vezes me senti ridículo cuidando, sem saber, de uma flor que nasce na zona temperada, quase polar, deste planeta, tentando adaptá-la ao clima tropical, acabei por fim sentindo um grande conforto que me transformou num homem extraordinário, que plantou e viu florescer no jardim de casa um pé de lupinos.

 Angelo Humberto Anccilotto (ago/2015)