O GAMBÁ

Noite amena de início de outono, a julgar pelo tempo que aparentemente dormi até ser despertado pelo rosnar da cadela na frente de casa, deveria ser cerca de uma da manhã. Levantei ainda ensonado, fui até a sala e afastei a cortina da janela para olhar através do vidro. Não era um latido feroz ou furioso, mas apenas um ladrar informativo como se ela quisesse nos avisar que havia outro animal passeando por ali.

Percorrendo os olhos em cada canto que a luz da rua me permitia enxergar, apareceu às minhas vistas, pousado sobre as patas traseiras e o rabo escorregando pelo muro da divisa da casa vizinha, um gambá, tão sereno como o silêncio daquela noite, que a cachorra trincava com seus avanços, na tentativa de expulsá-lo de lá.

Houve tempos em que a gente escrevia gambá numa crônica como essa e todo mundo sabia do que se tratava. Era um tempo em que o Brasil era rural e toda casa de colônia recebia, vez por outra, a visita de um gambá na calada da noite. Sua presença era denunciada pelo cacarejo das galinhas no poleiro, pela aflição do galo se fazendo de valente para salvar o plantel e pelo latido dos cachorros que só sossegavam quando um homem da casa saía lá fora com a cartucheira em punho e ... baaam. O estampido que furava a noite, às vezes furava o bicho, e às vezes não. Mas ele fugia, o galo consolava as galinhas com seu meigo cococó e voltava a reinar a paz na madrugada dos poleiros.   Hoje, que não é mais tempo de se atirar em bicho, eu tenho a impressão que ao ler gambá neste texto, muitos recorrerão ao Google para saberem que focinho tem esse animalzinho solitário e de hábitos noturnos.

Lá estava ele, sereno como eu disse, indiferente aos latidos da cadela, sobre um muro urbano que divide dois quintais e que não contém galinha nenhuma e nem ovos chocando no ninho. O que atrairia um gambá à cidade, e que refeição pretendia encontrar no asfalto onde a alimentação às vezes não basta sequer para os habitantes da espécie humana? Não tenho armas de fogo em casa e ainda que tivesse o gambá teria a seu favor a Lei e Polícia Ambiental. Qualquer ameaça que eu fizesse ao bicho seria passível de denúncia à delegacia mais próxima. Mas não briguemos com os bichos, não apedrejemos o gambá e nem mesmo o escorracemos. Limitemo-nos a observá-lo pela janela, pousado no muro, ali sozinho olhando a rua, a noite e as estrelas - quem sabe transido de saudade? Deixemo-lo no aconchego deste abandono, chamemos o cachorro para dentro e não o importunemos mais.

E ao sentir-se seguro, ele se levanta, caminha sobre o muro indo para os fundos e desaparece do meu raio de visão. Mas o pressinto saltando para o quintal do vizinho, passando debaixo do limoeiro, saltando o outro muro de trás, seguindo por um terreno vazio, voltando para a sua toca. Agora não sou mais responsável por ele. Apago a luz, retorno aos meus lençóis, meu travesseiro, meu sono, meus sonhos...

Angelo Humberto Anccilotto (Abr/2015)