UM PRECURSOR DA MODA

Chego a uma loja de roupas para comprar uma calça jeans. Não é para mim, pretendo dar a meu filho de presente. O vendedor mostra vários modelos, eu me inclino por duas e pergunto o preço. São da mesma marca, do mesmo tamanho, logo imagino que minha pergunta é vazia, pois devem custar a mesma coisa. O vendedor dá o preço de uma e depois o preço da outra. A segunda custa R$ 40 a mais. Pergunto por que a diferença, se existem nelas a mesma quantidade de tecido e foram produzidas pelo mesmo fabricante. Ele responde que a segunda é mais cara porque tem rasgos na perna. Finjo que não entendo. Aliás, não finjo; é que não entendi mesmo, e peço que ele me explique. Ele fala claramente segurando a peça nas mãos: Esta custa mais caro porque está rasgada.

Senhores jovens vendedores de calça jeans: jamais digam a um homem com mais de meio século de vida que uma peça de roupa é mais cara porque está rasgada. Não se esforcem para explicar, pois jamais entenderemos. Neste mundo em que uma geração desmonta a outra, parece que depois dos cinquenta nós retornamos à primeira infância, na idade dos por quês e indagamos a quem possa responder, por quê a vida é assim? Lá estou eu, atônito, na frente de um sábio balconista de 20 anos que me ensina com naturalidade os complexos truques da moda. A calça rasgada custa mais caro porque tem a preferência dos jovens. Tem mais saída, custa mais. Simples assim para ele, complicado demais para este senhor de poucos e grisalhos cabelos. 

Mas me recordo na loja de que sou um pouco responsável por essa moda; talvez eu tenha até sido o precursor dela. Quando jovem fui à missa certa vez com uma calça jeans rasgada como essas que a moçada usa hoje em dia. Quem sabe algum estilista não tenha me visto e se inspirado na minha rebeldia involuntária, e tenha trabalhado secretamente nestes últimos trinta anos para por no mercado esse modelo que viesse ganhar a preferência de moças e rapazes? Eu tinha ido ao estádio de Guaraçaí para ver uma partida de futebol e quando acabou o jogo entrei no campo para conversar com alguém e na saída enrosquei a perna num arame solto do portão. Fez um grande rasgo em L na calça logo acima do joelho. Envergonhado, andei pelas ruas daquele jeito. E quando passei perto da igreja, os sinos da tarde (a hora do Angelus) chamavam para a missa. Entrei, sentei num dos últimos bancos, e deixava o braço disfarçadamente sobre o rasgo da perna da calça. Mas a leitura do folheto às vezes me obrigava a esticar o braço e as pessoas olhavam com espanto um rapaz que entrara na igreja trajando uma calça em estado pouco decente para a ocasião.

Terminada a missa, minha vontade era sair rápido de lá e por fim àquela situação constrangedora, mas uma colega me vendo daquele jeito veio falar comigo e foi descendo a rua na minha companhia e quando nos demos conta estávamos no jardim. Eu me apressava em me despedir e ir para onde os olhares não me censurassem, mas ela sugeriu que sentássemos a um banco e diante de um convite assim, resolvi deixar que fosse como Deus quisesse. E fomos para um banco interno, perto da fonte.

As pessoaS que passavam continuavam olhando principalmente para perna rasgada da calça. Mas eu já não me perturbava com a anomalia da minha roupa, interessado que estava em nossa própria conversa. A moça que me levara para o jardim não era muito conhecida na cidade, era só uma colega eventual, e fico imaginando se não teria sido aquele fator inusitado provocado pela ponta de um fio de arame que a tivesse motivado a permanecer conversando comigo por mais de uma hora. A calça rasgada me fizera mais atraente? Na sua interpretação eu seria um jovem insurgente contra as boas maneiras de se vestir?  Um expoente da mocidade a protestar contra o rigor do comportamento social daquele tempo?  Por essas ou por outras razões, uma noite de domingo que eu julgara irremediavelmente perdida veio a ser uma noite bastante agradável.   

Na segunda-feira todos os colegas que encontrava na rua tinham duas perguntas básicas a me fazer: Quem era a moça e por a minha calça estava rasgada? O rasgo no tecido eu acho que foi fácil explicar, agora, o nome da moça é melhor não revelar. Certas lembranças da juventude ficam ainda melhores quando mantidas em segredo.

 ANGELO HUMBERTO ANCCILOTTO (Julho/ 2012)