MÃES

Penso nas mães de antigamente. Mães de esperar a cegonha, de parto sem hora certa, de manhã, de noite, de madrugada, no atropelo de encomendar a parteira. Mães ansiosas: menino ou menina?  Mães apreensivas: com saúde ou debilitado?  Mães de proles numerosas, duas, quatro, seis, oito, dez, doze, quinze vezes mãe. Mãe de filho no ventre, de filho no braço e de filho a puxar pela mão. Mães de múltiplos carinhos.

Mães de vestido de chita, de lenço na cabeça, de chinelo nos pés. Mães anêmicas, de rostos pálidos. Mães sem dinheiro para o fortificante. Mães de corpos frágeis sacrificados no embate diário. Mães que passavam o café antes do raiar do sol. Que enchiam a tina de água limpa de manhãzinha. Mães a riscar no chão de caso os fiapos da vassoura. Mães no fogão, na cozinha, na sala, no quintal. Mães onipresentes.

Penso nas mães de antigamente, a dizer simpatias para o dente do menino cair. Que rezavam o terço para Deus proteger. Que faziam novenas para chover. Que cantavam para o nenê dormir. Mães que amassavam folhas de alecrim para as cólicas da menina. Que chamavam benzedeiras para curar lombrigas. Mães que enlatavam os biscoitos para a formiga não comer. Que untavam as formas para o bolo não grudar. Mães que sabiam as horas no trajeto do sol. Mães analfabetas, de um saber profundo não codificado em letras.     

Penso nas mães de antigamente, que o Tempo foi chamando para si, atribuindo-lhes outras hierarquias. Mães que foram ficando avós, bisavós ou se tornando saudades.

Penso nas mães de agora. Mães de pré-natais. Das consultas reincidentes ao obstetra. Mães ultrasonografadas, sem surpresas no sexo do bebê. Mães que mostram o ventre crescido e desnudo nas revistas, nas ruas, nas praias. Mães orgulhosas , portadoras da vida que se replica. Mães de anestesia e cesárea. Mães que definem dia e hora do parto. Mães que dão nome ao bebê antes de nascer. Mães dos tempos das fraudas descartáveis. Mães práticas.

Mães operárias, que a lei tanto protege como faz discriminar. Que faltam ao trabalho pelo filho que arde em febre. Mães que telefonam para a creche para colher notícias do pequenino. Que abordam a professora para especular a inteligência do filho. Que assinam boletins, que estipulam horários de estudo. Mães acadêmicas.  Mães objetivas.

Penso nas mães de agora. Mães ágeis na lidas com os botões do forno de micro-ondas, da lava-roupa, da lava-louça, do aspirador de pó. Mães que telefonam para a empregada cozinhar  o peixe, que deixam bilhetes para a faxineira descongelar a geladeira. Mães que passam no banco, que pagam contas. Que discutem preço, que reclamam dos juros. Mães motoristas. Mães rainhas sem tronos a comandar súditos de memória eletrônica.

Penso nas mães de hoje, a imaginar o filho ausente em sua vida de república de estudante. Mães telepáticas a esperar o toque do telefone, a mensagem do celular: “Ele sempre liga nesse horário!... Mães insones na longa madrugada com o ouvido parabólico esperando o barulho da maçaneta da porta da sala, o ranger das dobradiças, os passos no corredor, o som da agua despejada no copo. Sons que equivalem a uma dúzia de Lorax e fazem adormecer pobres mães agoniadas.

Penso nas mães de agora. Mães inseguras entre tantos temores a desejar outra vida para os filhos.

Penso nas mães do futuro. Mães sem gestação. De óvulos extraídos e fecundados fora do corpo. Mães de filhos gestados em incubadoras. Mães sem bodas, a serviço da Federação para produzirem meninos ou meninas conforme a conveniência da ocasião. Mães de filhos transgênicos. Mães que se doarão para a multiplicação, sem ônus para o corpo, reinventando a procriação da espécie.

Penso nas mães do futuro. Mães executivas, mães virtuais. Mães de teleconferências que surgem na tela do computador do filho a qualquer momento para dar bronca ou para consolar a tristeza.  Mães sempre perto e sempre longe, sempre ausentes e sempre presentes. Mães da era do controle remoto. Mães interdepartamentais, globalizadas, interplanetárias talvez.

Penso nas mães do futuro. Espécie sobrenatural impulsionada por estímulos de última tecnologia e de primitivo instinto maternal.

Penso nas mães de todos os tempos. Mães que recontextualizam  na infinita sequência de mudanças do mundo. Mães são eternas!  

Angelo Humberto Anccilotto (Mai/2007)