AS AVENTURAS DE TANGO

Sempre que falávamos em mudar do apartamento para uma casa surgiam inconscientemente castelos no ar. E entre esses sonhos fugazes sempre surgia o de ter um cachorro no quintal. Até que um dia eu falei: Por que um e não dois? E daquele momento em diante não pensávamos mais em um cachorro e sim em dois. Imaginávamos a farra deles correndo, se derrubando um ao outro, a proteção em dose dupla oferecida à nossa casa ainda imaginária e os nomes que daríamos a cada um da dupla.  Num estalo, veio a ideia: Tango e Cash.

Tango e Cash é uma dupla de policiais canastrões de um filme antigo protagonizado por Silvester Stallone e Kurt Russel.  Tomaríamos emprestados os nomes da dupla com a esperança de que os cachorros vivessem a mesma aventura audaciosa e atrapalhada do filme, fornecendo-nos diversão e segurança ao mesmo tempo.

Com o tempo, e com a proximidade da minha aposentadoria, parte do plano foi executado. Adquirimos uma casa com quintal e varanda. A outra parte, a adoção dos cachorros é que foi ficando meio desconfigurada. Laura visitou uma feira de adoção para se inteirar do assunto, mas apareceu em casa com uma cadela de cinco meses, vira-latas até a medula, já registrada no trâmite de adoção com o nome de Cash. Diz ela que a cachorra olhou-a com os olhos tristes e – como na crônica do Drummond: “Dona, me leva?” Ainda não tínhamos o Tango, e Cash, segunda ela, era um nome, por assim dizer, unissex para animal, que poderia ser dado a uma cachorra sem o menor pudor ou constrangimento. Levamos a Cash para a casa, acompanhamos seu crescimento, prestamos-lhe a assistência veterinária necessária e se eu fosse escrever sobre ela, a parte mais emotiva seria aquela em que eu diria que é uma grande amiga, feroz o suficiente para espantar desocupados que às vezes param na frente do portão de casa. À tarde, quando apanho uma bebida e vou me sentar na varanda, ela  se deita no chão com a cabeça apoiada em cima dos meus pés e ali permanece, enquanto bebo. Talvez um dia eu escreva uma crônica exclusivamente para contar o seu apego, mas por hora o que posso dizer é que seria muito bom se as mulheres ou os amigos acompanhassem nossos drinques nesse mesmo silêncio terno que essa cachorra me acompanha, sem um ai de reclamação da vida. Mas eis que agora pulou no meu colo o dono desta crônica e vou continuar o assunto falando dele.

Tango está conosco há dois meses, e veio para desconfigurar mais ainda a dupla de cachorros que imaginávamos formar a partir do nome dos policiais do filme.  Sobretudo, porque Tango não é um cachorro, é um gato rajado, e seria um gato muito feio, não fosse o seu poder de encantar as pessoas. Chegou à nossa casa de maneira imprevista, porque tinha apenas vinte dias de idade quando mataram sua mãe. Sim, ainda em pleno século XXI os seres humanos dão veneno para matar os gatos de rua, e Tango e seus quatro irmãos ficaram órfãos muito cedo. Digo quatro irmãos, mas na verdade eram quatro irmãs; ele era o único macho da ninhada, mas por algum acidente que não conseguimos identificar, tem as vértebras da coluna deslocadas. Tem uma falha de costela no peito, o que lhe forma uma cavidade entre o abdome e o pulmão, e em compensação tem um osso levantado logo abaixo do pescoço formando-lhe uma saliência no dorso, semelhante ao cupim de um bezerro ou a corcova de um camelo.

A vizinha do galpão onde eles nasceram, aqui em Barra Velha, recolheu os cinco e tratou de arrumar um lar para cada um, por meio de anúncios no Facebook. As quatro irmãs foram rapidamente adotadas, mas Tango, todo desengonçado, foi sendo preterido até que Laura viu a foto e se deixou cativar por ele. A veterinária levou um susto quando o levamos para a consulta e as vacinas pertinentes, mas garantiu que todos os órgãos internos estavam funcionando em perfeito estado e nós que não apostávamos muito alto na sua sobrevivência, descobrimos logo que estávamos diante de um caso de hiperatividade felina.

Com apenas 40 dias já se aventurava pelo telhado, olhando para dentro da chaminé da churrasqueira; talvez quando crescer se fantasie de Papai Noel numa noite de Natal para trazer presente aos filhotes. Desce do telhado e vai brincar no jardim, com a mesma sutileza de um elefante numa loja de cristal. Corre e salta perseguindo as borboletas, mas como essas voam alto, ele cai em cima das plantas e quando se convence que não vai mesmo agarrá-las pula para agarrar no lugar delas os cravos e as margaridas, e cada vez que ele faz isso é uma flor a menos no jardim.

Seu defeito físico não lhe impõe limitações embora seu tamanho não acompanhe sua idade; parece bem mais novinho do que é.  Seu jeito de correr é muito engraçado; parece um tiranossauro rex, daqueles do Parque dos Dinossauros.  Ele corre meio de lado, como a compensar as falhas na coluna, com o rabo levantado, perseguindo as folhas secas que o vento faz passar na garagem, salta, prende-as nas unhas, depois solta e volta a persegui-las. Se encontra um fio de barbante no chão, dá o bote, agarra, morde, deita de costas no chão, chuta, dá coices e sai correndo levando-o preso nos dentes.  Quando saio de casa de manhã, mal ouve a chave balançar na minha mão, esteja ele onde estiver, corre para a porta como se dissesse: “Oba, nós vamos sair? Aonde nós vamos, hein?” Levo- o de volta para o dentro e explico-lhe que desta vez ele ainda não vai; talvez daqui uns tempos, quando crescer mais...

Mas para salvar a reputação da dupla, Tango e Cash se entenderam muito bem. Ela, carinhosa, deu muita atenção a ele desde o primeiro dia. A atenção foi ficando mais ousada e hoje um vive pulando sobre o outro, derrubando-se no chão, mordendo, unhando; ele corre, a cachorra corre atrás, outras vezes é ele que salta no pescoço dela, agarra e faz gesto para derrubá-la. Ela, com tamnahi no mínimo dez vezes maior que ele, tolera tudo, mas as vezes se revolta e rosna alto ou então fica olhando para nós como que pedindo autorização: “Eu posso dar uma mordida nesse pirralho?” Depois deitam os dois no tapete e dormem, rosto a rosto, juntinhos.

Talvez o leitor se sinta traído nesta crônica porque leu até aqui e não encontrou até agora nenhuma grande aventura desse gato. Mas essa aventura a que eu quis me referir é a sua própria vida. Ter se acidentado logo ao nascer e ficar órfão, com coluna toda torta, e correr como ele corre é um espetáculo em si. Quando se cansa e vem pedir arrego no colo da gente com aquela cara de tigre domesticado, é uma doçura. Parece um moleque levado. Se fosse gente, tenho certeza que seria bom de bola.

Angelo Humberto Anccilotto (Fev/2016)