MALDITA TECNOLOGIA

Fez muito calor na Região Sudeste do Brasil entre novembro de 2009 e março de 2010. Quase todos os dias nesse período usamos a expressão: “Hoje deve chegar aos 40 graus!” Estamos habituados a dizer isso, é maquinal, uma expressão que não sai do lugar comum. Quando dizemos 40 graus queremos dizer qualquer coisa acima dos trinta. Pode ser trinta e dois, trinta e cinco, trinta e oito, não importa. Fica tudo arredondado para quarenta.  O chato é que tem sempre um espertinho por perto para corrigir a gente: “Na verdade a temperatura está em 34 graus, mas a sensação de calor que você está sentindo é de 40.” A gente olha para o sujeito e tem vontade de indagar: “E...?” Assim mesmo, com reticências  dando bastante espaço para ele completar a explicação. Mas na verdade ninguém explica nada. Essa estória de a temperatura ser um e a sensação térmica ser outra, surgiu na televisão e nos jornais e todo mundo repete isso como papagaio. Se o meu corpo sua como se a temperatura fosse de 40 graus, a temperatura real só pode ser 40 graus. Ou se ajustam os termômetros ou juntam temperatura e sensação numa única medida.

A evolução tecnológica vive criando aparelhos sofisticados, combinando instrumentação eletrônica com programas de computador para detalhar (ou retalhar) nossos antigos conceitos de calor, peso, medida e velocidade. Ainda ontem o Roberto Carlos, do Corinthians, acertou um chute magnifico no ângulo, assinalando um gol antológico. Entro no bar e a televisão do ambiente está mostrando o lance. Comento: “Que bomba esse cara acertou!”  O rapaz do lado se enche de conhecimento aerodinâmico e emenda: “A velocidade da bola chegou a 127,3 quilômetros por hora”  (ele faz questão da casa decimal). Sem conhecimento da física de tração e aceleração de corpos, vejo-me desabilitado para continuar o assunto. Peço um café e viro as costas para a tevê.

Criaram também o tira-teima no futebol e ele deixou as nossas manhãs de segunda-feira um pouco mais sem assunto. Nunca mais vamos teimar se o gol valeu ou não, se havia impedimento ou não. Agora a dúvida não dura mais que trinta segundos. Vêm reprises de todos os ângulos e depois o tira-teima. O comentarista de arbitragem orgulhosamente referencia o acerto do bandeirinha: por dez centímetros de vantagem sobre o zagueiro, o atacante estava de fato em posição irregular.  O bandeirinha foi perfeito na sua interpretação. Ouço essas explicações e remôo por dento. Um bandeira que marca um impedimento por dez centímetros de diferença entre um jogador e outo só pode estar mal intencionado. A vontade dele era de parar a jogada; acertou por acaso. Nenhum olho humano é capaz de distinguir, a trinta metros de distancia, uma diferença tão pequena, principalmente considerando que isso ocorreu no exato lançamento da bola. Mas, na segunda-feira, já resignados diante das provas cabais do olho mágico da televisão, não temos mais dúvidas para discutir. A tecnologia veio para nos dar  certeza de tudo.

Ainda pelo lado esportivo, nesse domingo que passou assisti à corrida de Formula Um. Pois até a Fórmula Um, acostumada a uma escala milesimal de tempo, nesta temporada apresentou seu progresso (ou suas progressões). Fernando Alonso liderava a corrida e eu esperava o fim da volta para saber se o Massa estava aproximando. De repente, o Galvão Bueno passou a informar três tomadas de tempo numa mesma volta. Com a pista seccionada em três trechos distintos, o locutor informava o tempo que cada piloto fazia nesses intervalos. Massa ia mal no primeiro, ganhava de Alonso no segundo, mas o espanhol se recuperava no terceiro. Não sobrava nenhuma esperança para o torcedor no fim do circuito. A informação nos chegava em microcapítulos revelando que a distância entre os dois não diminuiria.

O tira-teima, a sensação térmica, a cronometria da velocidade são exemplos de tecnologias supérfluas. Bicho do mato como sou me aborreço com essa evolução termotempocronométrica, que tudo define em tempo real, sem guardar surpresas para o fim. Tudo passou a ser tão detalhadamente esclarecido e detalhado, que perdemos o benefício da dúvida. A vida ficou óbvia demais.                            

Angelo Humberto Anccilotto (Mar/2010)