OS BONS, OS MAUS E OS JUSTOS

Ocorre-me em certos momentos vagos da vida, pensar que espécie de pessoa eu sou. Serei um homem bom? Mau? Justo? Injusto? Há muito tempo, escrevi uma frase, sem querer, na folha de uma agenda fora de uso: “Não é preciso ser bom, basta ser justo”. Deus sabe o que eu devia estar pensando naquele momento para escrever aquilo. A agenda foi para o lixo algum tempo depois e com ela a frase escrita à caneta. Se alguém a leu deve tê-la atribuído a algum filósofo chinês que viveu no ano 3000 AC, portanto não tenho a mínima chance de requerer direitos autorais, se um dia ela for talhada numa peça de madeira e exposta na sala acima da cabeça de algum magistrado em algum palácio da justiça deste planeta.

É meu entendimento também que a justiça é uma linha reta que segue riscando o chão a nossa frente, e nossos passos vêm atrás, ora se equilibrando sobre ela, ora escorregando para baixo e ora indo acima dela. Quando nos equilibramos somos justos, quando estamos pisando abaixo da linha estamos sendo maus, e quando a ultrapassamos estamos sendo bons. Portanto, ser bom e ser justo não são a mesma coisa. Se um patrão demite um empregado faltoso, ele está sendo justo, mas se ele o perdoa e lhe dá nova chance, está sendo bom.

Mas acho que quem lê este jornal o faz no fim de semana, descontraidamente, e este não é um tema para descontração. Melhor não ir mais longe. Portanto continuo aqui peregrinando a procura de atos que eu tenha cometido que venham me credenciar na bondade. Penso nas esmolas miúdas que deixo no chapéu de algum pedinte, nos sanduíches que eventualmente paguei a quem me pedia comida, mas isso faz de mim um homem bom? Penso nas doações de roupas que faço para as campanhas da Defesa Civil sempre que há catástrofes em algum canto, penso na carona que já ofereci a algum amigo, e concluo que não tenho nenhuma grande obra na minha galeria de virtudes.

Mas hoje é um daqueles dias que o assunto não flui. Fosse dia de prestar vestibular ou prova para concurso público, certamente eu seria arrasado na nota de redação. Arrastei o leitor até aqui para, enfim, confessar constrangido, que não colecionei na minha história de vida nenhum grande ato de benevolência. Essas pequenas caridades, tão prosaicas, que eventualmente prestamos, não são suficientes para alçar um homem ao Olimpo da beneficência. Quanto à justiça, não é fácil para ninguém equilibrar-se sobre a linha reta riscada no chão. Às vezes cambaleamos e erramos o passo como o homem que sai do bar com três conhaques na cabeça. Tem havido muitos julgamentos no Brasil, não passa uma semana sem que um júri aprecie um grande crime neste país e a população, excitada ante a expectativa da condenação, oscila entre a razão e os sentimentos. Aqueles que o coração os eleva sobre a linha da justiça são os bons, porque sabem perdoar. Os que mantem o rigor e buscam o equilíbrio entre o crime e a reparação, esses são os justos. E aqueles que gritam aquém da linha da justiça, invocando a vingança, esses são os maus.

Vivemos um tempo de superação em que se conclama o homem a ultrapassar seus limites. Tal como o aluno estimulado a perseguir a nota 10 quando 7 já lhe basta para a aprovação, assim também deve proceder o homem bom. A justiça é o grande sonho da humanidade, mas talvez não baste quando se deseja um mundo verdadeiramente melhor. E aquela frase que joguei no lixo há muito tempo atrás, talvez alguém já a consertou: “Não basta ser justo, é preciso ter bondade”.

Ângelo Humberto Anccilotto (Abr/2013)