SOL DE PRATA

Não era alvorada e nem mesmo aurora; já era uma manhã encorpada e o sol veio de encontro ao meu rosto, tão forte que foi preciso parar o carro e estacionar no meio-fio para recuperar a visão momentaneamente tomada pela luz intensa. E quando olhei o edifício envidraçado em frente recebi de novo o reflexo nas vistas. Então percebi um sol menos dourado, um sol mais branco do que o nosso sol de todo dia, como se os raios agissem contra cristal da manhã esparramando fragmentos prateados no céu.   

Escrevi este parágrafo acima e, na verdade, não sei o que fazer com ele. Não estou pensando em nenhuma estória sobrenatural ou em algum surrealismo cósmico, apenas vi uma manhã em que o sol fulgia intensamente em raios cor de argenta e dentro dessa manhã eu era mais um operário que seguia para o trabalho, que a poucos minutos subiria ao décimo segundo andar de um prédio da cidade e lá permaneceria até o anoitecer sem saber como esse sol branco se comportou durante o resto do dia. Também não sei direito a quantas andam a cor do sol ultimamente, se já deixou de ser dourada de vez e assumiu definitivamente esse tom alumínio, ou se  essa manhã prateada é só o prelúdio da primavera que chega daqui a um mês. 

Pensei em como ando gastando a minha vida, por onde tenho andado se nem mesmo tomo conhecimento das mudanças no matiz das manhãs ensolaradas.  Quando chego à garagem do prédio o vigilante me faz sinal  que só há vaga no segundo subsolo e desço a rampa me aprofundando ainda mais nos subterrâneos da cidade onde a luz é artificial e o sol não chega jamais. Em vez de tomar o elevador na garagem, subo dois lances de escada e chego ao nível da rua. Lá fora ainda brilha o mesmo sol de prata que há poucos minutos vinha de encontro ao meu rosto e isso me desperta um desejo irresponsável de não me consumir atrás de uma mesa carregada de trabalho; penso em andar a esmo pela rua, tomar café no balcão mais confortável da redondeza, ver o tempo passar lentamente e o dia se esgotando num longo espreguiçar do corpo, tenso da faina diária.

Como um grande urso branco que despertava da hibernação, saio vagarosamente andando pela calçada, colhendo nas bochechas o vento fino que vem misturado num raio de sol já meio aquecido pela hora avançada da manhã. A moça da cafeteria extrai meu café e acrescenta espuma de leite, depois me indica uma mesa onde eu possa me acomodar e apreciar tanto a bebida matinal como a movimentação da rua onde as pessoas vem e vão cruzando os passos na frenética busca  de seus destinos.      

Ato falho, me esqueço de desligar o telefone. No terceiro gole de café ele vibra sobre a mesa. Foi preciso atender. A voz do outro lado da linha pouco a pouco me fez perceber que o milagre acabara. Foi preciso responder às perguntas, esclarecer as dúvidas, arrumar soluções, explicar isso, repetir aquilo e por fim voltar ao prédio, subir ao décimo segundo andar, assumir meu posto para todo o dia e para o todo o sempre talvez.

Um raio de sol espremido na fresta entre dois edifícios altos ainda resvalou em  meu corpo na passagem. Um raio de prata, mas valia ouro.

Ângelo Humberto Anccilotto AGO/2011