DELÍRIO

 

O cantor e compositor Toquinho, último parceiro de Vinicius de Moraes já na fase pós bossa-nova, contou certa vez numa entrevista que um dia o Poetinha, atacado por um febre violenta, cismou de querer jantar em determinado bistrô. Toquinho tentava tranquilizá-lo:

 

- Qualquer dia a gente vai.

Inconformado, Vinicius insistia:

- Qualquer dia, não! Vamos hoje.

- Hoje não é possível, nós não fizemos reserva.

- Liga pra lá e faz!

 

Toquinho já não sabia ao certo se o poeta entrara em transe devido a febre alta, ou se era uma brincadeira como tantas que ele aprontava, e resolveu endurecer:

 

- Vinicius, esse restaurante fica em Paris, como é que nós vamos até lá?

E Vinicius mansamente:

- Ué?  De avião!     

 

Percebendo que era mesmo delírio, Toquinho deu o golpe final:

- Aquele restaurante fechou; não existe mais.

E Vinicius, poeticamente, sem se alarmar:

- Se fechou como é que eu ainda me lembro dele?  Se eu lembro, ele existe!

 

Vinicius morreu pouco tempo depois e o jantar ficou pendente.

 

 De um modo geral estamos todos propensos a algum tipo de delírio. Não pela febre, não pela embriaguez, mas por uma turvação rápida dos sentidos que às vezes nos faz ter esperança no impossível. Algo que confunde nossa imaginação e revela para nós mesmos um desejo secreto de que algo aconteça ou reaconteça  em nossa vida. Certa noite sonhei que  estávamos em 1987 e andávamos atrás de reunir os formandos de 1977 do Colégio Comercial para uma modesta celebração de dez anos.  Mas os preparativos e os contatos nos faziam perceber que dez anos era tempo demasiado, suficiente para dispersar velhos amigos. Mais que isso, era tempo suficiente para fazer alguns se meterem na vida sem querer mais saber dessas recordações. Não havia Internet ainda no Brasil e esbarrávamos na insuficiência dos endereços e na falta de telefones. Foi um esforço em vão, o encontro não se realizou. Ao acordar, sentei na cama ainda com as imagens sonhadas bem nítidas na cabeça e, um tanto desapontado, procurei me confortar dizendo para mim mesmo: Em 1997 a gente tenta de novo. À medida que fui despertando mais completamente me dei conta que já estávamos em 2002.

 

Este é o caso mais nítido de um instante em que a falsa esperança transcende a realidade bruta. Pense um pouco leitor e encontrará em sua vida dezenas de casos semelhantes. Há sempre uma partida de futebol grandiosa que queremos assistir, mas na verdade ela já aconteceu há 40 anos atrás. Torcemos o ano inteiro por um piloto de Fórmula Um sem nos dar conta que ele já morreu há muito tempo. Há uma canção que faz a gente ligar o rádio todo dia para ouvi-la, mas ela já não toca há mais de trinta anos. Há uma quermesse que a gente quer ir, mas ela já acabou há trinta e tantos anos. E há sempre uma menina do colégio que queremos rever, mas ela não existe mais. No seu lugar o tempo plantou uma senhora, com jeito de mãe, de avó, talvez.

 

Angelo Humberto Anccilotto (Mai/2012)