NÓS, OS NAVEGANTES

Caiu-me nas mãos um livro sobre a navegação europeia dos séculos XV e XVI. Não é nada além do que aprendemos na escola sobre as grandes descobertas de portugueses, italianos e espanhóis, que, movidos por princípios mercantilistas, punham-se em aventura sobre o Mar Tenebroso, como era conhecido o Oceano Atlântico. O destino das viagens era sempre o mesmo: chegar às Índias para trazer de lá cravo, canela, pimenta, noz-moscada, gengibre, porcelana, seda, marfim e perfume.

Tripulados em caravelas que não passavam de pequenos navios de estrutura leve movidos pelo vento, os bravos marinheiros partiam de Lisboa ou de Gênova e iam mar a dentro. O que tem de emocionante nessas narrativas é o fato de que os instrumentos de última geração usados para a navegação eram apenas a carta oceanográfica e a bússola, e ninguém jamais havia calculado a extensão circunferencial do nosso planeta. O desafio era encontrar um caminho marítimo que os levasse às Índias sem passar pelo Mediterrâneo. Vasco da Gama conseguiu. Com muito custo navegou toda a costa africana, atravessou o Cabo das Tormentas e bateu nos portos indianos.

Pedro Alvares Cabral e Cristóvão Colombo não tiveram a mesma sorte ou, por outro lado, tiveram mais sorte. O almirante português partiu do porto de Lisboa em 9 de março de 1500, uma segunda-feira (belo dia para se viajar) e ia para as Índias.  No caminho teria passado por uma tempestade, perdeu o rumo e bateu numa praia cheia de mato com gente pelada morando nela. E Cabral apostava que estava na Índia. Mas a bordo havia um escrivão astuto que logo reconheceu que aquilo não eram terras da Ásia e pôs-se a escrever ao Rei contando que a expedição encontrara um solo rico onde, em se plantando, tudo dava. Os governos brasileiros, 500 anos depois, descobriram que o escriba lusitano estava coberto de razão e começaram a plantar, em vez de só esperar que a terra desse.

Colombo, por sua vez, convenceu o rei Fernando de Aragão a autorizar sua viagem afirmando que chagaria ao oriente indo para o ocidente, dando uma volta na Terra. No meio do caminho havia uma ilha e o navegador genovês não tinha a menor ideia de onde estava. Ancorou numa praia que hoje é a Ilha de São Salvador na América Central e comemorou como se estivesse em terras da Ásia. Começou a mandar mensagens confusas para Dom Fernando que três anos depois pediu a Américo Vespúcio que fosse conferir o que Colombo havia encontrado de fato.  Vespúcio chegou e deu-lhes uma bronca: Vocês não chegaram à Ásia coisa nenhuma! Estas terras aqui nem estão no mapa ainda. E como se chamam? - teria alguém perguntado. E Vespúcio todo orgulhoso: Ainda não tem nome. Mas eu não me chamo Américo? Pois então, as terras desse Mundo Novo hão de se chamar América.  

Eu fico imaginando como é bom viajar sem rumo, seja no mar, seja na terra. Chegar, por exemplo, em Urucará, no Amazonas pensando que se está em Itacoatiara. Esses navegadores por satélite que arrumaram hoje em dia tirou toda a emoção das nossas viagens. Pensamos em ir a qualquer lugar que nunca fomos antes, ajustamos o GPS e ele vai-nos guiando pelo caminho. Não temos mais aquela sensação de estar errados ou perdidos, parar num posto de gasolina e perguntar onde estamos e que caminho tomamos para chegar ao nosso destino.

Essa sensação de que não estamos no caminho certo é a mais pura sensação de aventura de uma viagem e se fosse para dar umas pinceladas filosóficas nesta crônica, diria que, sendo a vida a nossa maior viagem, andamos quase sempre às tontas. Não criaram satélites que nos guiem e ainda em muitos momentos a dúvida se estabelece: Fizemos o melhor caminho até aqui? Continuando assim aonde vamos parar? Seria melhor mudar de rumo? Mas não vamos meter a vida no meio disto. Fiquemos com os nossos bravos almirantes, capitães de fragata e marinheiros que olhavam a carta de navegação e certamente discutiam ente si, uns achando que estavam mesmo indo para as Índias e outros suspeitando que estavam  indo para o fim do mundo. E de certa forma estavam mesmo. A América era o último reduto inexplorado e depois dela nenhum outro continente foi encontrado.

Infelizmente, porque tem vez que a gente chega em casa tão entediado, exausto de gente e de ordens, que dá vontade de pegar um barco e sair no mar sem rumo, sem bússola e sem mapa, na esperança de encontrar uma ilha isolada, nem que seja aquelas formadas por uma única rocha de cujas fendas brotam bananeiras silvestres para fazer sombra na inclinação do sol. Um pedaço de terra ainda virgem, jamais tocada pela mão do homem na qual podemos aportar e dormir com a ilusão de que chegamos, enfim, ao Novo Mundo!   

Angelo Humberto Anccilotto (Abr/2015)