DESPEDIDA

Olá pessoal! Estou me despedindo de vocês. Ainda faltam alguns dias para minha partida, mas como sei que de agora até o fim vocês estarão ocupados em festejos e não terão tempo nem paciência para me ouvir, resolvi me despedir neste momento.

Eu sou 2013, o que vocês já chamam de Ano Velho. Daqui a pouco desapareço. Saio das vossas vidas para ficar na vossa lembrança. Nunca tivemos tempo de conversar, vocês se põe em desenfreada euforia à espera do ano novo, e eu, velho, quase morrendo,  me sinto constrangido, descartado e inútil. Então penso no que fiz por vocês. Posso não ter sido um bom ano, assim como muitos outros que já passaram também não foram, mas acreditem, fiz muito para ajudar.

Quando cheguei, na meia noite de primeiro de janeiro, vocês me emocionaram. Foram tantos fogos iluminando o céu, flores atiradas nas ondas do mar, bolas e papeis descendo dos edifícios, carros buzinando nas ruas, abraços, beijos, brindes, vinho derramado sobre as toalhas das mesas, copos quebrados no chão, foi tanta festa que pensei: Será que mereço isso tudo?

Que responsabilidade vocês me deram! Eu tinha de realizar o sonho de bilhões de pessoas em todo o mundo. Vocês pediam, vocês prometiam... Muitos pediram coisas sem nenhum sentido, sonharam muito além das possibilidades. Sim é preciso levar em conta as possibilidades. Sonhar muito acima delas é mera utopia. Outros pediram coisas razoáveis, que até ficaram à disposição, mas não apareceram para buscá-las. Mal chegou o segundo semestre e se puseram a me desmerecer, a dizer que eu não estava sendo legal, que iriam esperar 2014, e que ele sim, seria maravilhoso e realizaria os seus sonhos.

Ouvi milhões, talvez bilhões de vezes e confesso que é impossível não entristecer com esse desprezo. Eu aqui tentando ajudar e vocês correndo de mim. Eu sou 2013 e são poucos os que viveram o meu tempo. Eu gostaria de caminhar lado a lado com cada um, viver nossos dia-a-dia, apreciar cada momento junto com vocês, mas vocês são fugidios, quando eu pensava que ia acertar o passo, vocês entravam com seus planos para o futuro e se embrenhavam com seus pensamentos em  2014, 2015, 2020.

Lá, em primeiro de janeiro, tantos me pediram felicidade e eu fiz o que pude para dá-la a vocês. Dei a muitos a oportunidade de encontrá-la, era só olhar em volta ou andar um pouquinho mais, mas acho que vocês imaginam que  felicidade vem como presente de Papai Noel, embrulhada num pacote cheio de laços dourados, que cada um desembrulha e depois guarda no armário. Não é assim. E por isso, para muitos eu não prestei. Sei que fui decepção e amargura, mas sei também que em algum canto da Terra há quem reconheça o meu valor e tudo que representei na vida deles. São poucos, mas me dou por satisfeito.

Estou morrendo, pouco me resta a fazer nesses dias que ainda me sobram. Eu sou o Velho, aquele que vocês não veem a hora de acabar. Não quero mais tomar o vosso tempo. Ide às lojas e às boutiques preparar a roupa branca para vosso réveillon que está bem próximo. Quanto a mim, retorço minhas pobres mãos cansadas para sair de cena e me perfilar na linha do tempo, a que vocês chamam Passado. Mas antes me permitam um conselho: Eu, quando cheguei, entre festas e abraços, assim como vocês, fiz meu pedido particular. E também me decepcionei, porque esperei vossas realizações e não vi grandes acontecimentos da vossa parte.  Então, experimentem uma única vez na vida inverterem os papéis. Ao invés de pedirem, ofereçam. A 2014 que está chegando ofereçam-lhe muita paz e muita alegria, e assim, em vez de terem um ano que fez o mundo feliz, vocês terão o mundo que fez um ano feliz. Adeus!

Angelo Humberto Anccilotto (09/12/2013)