A GRANDE HOMENAGEM

No balcão da repartição pública, a recepcionista perguntou-lhe o nome.  Ele respondeu. Ela não acreditou e perguntou de novo. Ele tornou a dizer. A moça então quis saber como se escrevia. Ele soletrou. Ela foi anotando, depois mostrou-lhe a ficha:

- É assim?

- É. Só que é junto e não separado.

- Junto como?

- Junto. Você separou o Gerja do resto, e não é separado.

- Ah, é um nome só?

- É.

- Pensei que fosse nome e sobrenome.

- Não é. É TOSPERICAGERJA de....

 Não vamos revelar o nome de família; deixemo-lo anônimo. Também não ouvi esta conversa, mas posso imaginar que ela aconteceu, e muito provavelmente se repetiu muitas outras vezes ao longo da vida desse moço. Brasileiro tem nome de todo tipo. Nome que vem das raízes, variando entre o indígena e o africano, nome moderno, importado dos Estados Unidos, da Itália e da França, nome inventado e nome copiado de artistas e gente famosa.  Principalmente os brasileiros do sexo masculino. Tem muitos Elvis Presley batizados no Brasil, muitos John Lennon, muitos Alan Dellon, muitos Marlon Brando, Roberto Carlos, Ademir da Guia, Ayrton Sena, Raí, Eder Jofre e tantos outros mais. E circula de vez em quando pela internet nomes exóticos como os das irmãs Diabela e Noitelinda, dos moços Sebastião Salgado Docci, Rolando Scadabaixo e Pacífico Guerreiro. Mas esse rapaz recebeu em cartório o registro de Tospericagerja.

Nasceu em 1971, em Tefé, município localizado bem no coração do Estado do Amazonas, que possui hoje cerca de 60 mil habitantes. Não sei nada sobre esse homem, sequer se ainda é vivo, e essa crônica parece não fazer sentido. Mas o fato é quando li o nome, ele me soou tão estranho que parecia querer dizer alguma coisa. Então me pus a  imaginar o que levaria um pai de família a registrar seu filho como um nome desses. Seria um louco? Alguém que não se importava, que disse a primeira bobagem que lhe veio a cabeça quando o escrivão do cartório perguntou como se chamaria a criança? Um desiludido? Alguém que depois arrumaria um apelido para chamar o menino e esse apelido fosse encobrindo o nome verdadeiro até que ele desaparecesse totalmente?

Mas nem tudo é o que pensamos. Separando as silabas cautelosamente descobre-se que por trás do nome da criança existe um pai feliz, em estado de graça, que quis prestar uma grande homenagem, não a um ídolo apenas, mas a uma legião deles. Não foi difícil descobrir que TOS vem de Tostão, que PE vem de Pelé, RI é de Rivelino, CA é do Carlos Alberto, GER, é do canhotinha de ouro  Gerson, e JA é do furacão Jairzinho.

O nome é verdadeiro, quem quiser pode conferir no cartório de registro civil de Tefé, no Amazonas. Tospericagerja, assim um pai de família batizou seu filho em 1971, quando ainda celebrava o tricampeonato do escrete brasileiro. A homenagem é justa, mas fico imaginando a dificuldade da mãe para educar um menino com este nome: “Tospericagerja, vá lavar as mãos já!” “Já terminou sua lição, Tospericagerja?” “Presta atenção quando eu falo como você, Tosperica!” Já para o pai, difícil mesmo deve ter sido deixar os outros cinco tricampeões fora da homenagem.

 Angelo Humberto Anccilotto (Abr/2015)