NINGUEM MAIS SABE ESPERAR

Hoje de madrugada acordei com um sabiá cantando. Já escrevi mais de uma vez sobre os sabiás que cantam de madrugada por isso vou apenas fazer uma breve introdução e deixá-lo em paz. A introdução é necessária porque os sabiás cantam na primavera e nós não percorremos ainda um terço do inverno. Fiquei triste ao ouvi-lo cantar hoje porque é sinal que a Natureza também tomou para si a mesma pressa dos homens.

Vivemos um tempo em que ninguém mais sabe esperar a época das coisas. Tudo é antecipado, tudo virou temporão. O operário não espera mais o salário do fim do mês para comprar o que deseja; vai à loja e compra com cartão de crédito para pagar depois. O comerciante vende a prazo mas não espera o tempo de receber a sua venda; vai ao banco e desconta a fatura do cartão ou o cheque pré-datado que recebeu.

Os casais de namorados não esperam mais; as núpcias agora acontecem logo depois do primeiro beijo. Os futuros pais não esperam mais o filho nascer; já sabem muito antes a cor dos olhos do bebê que vem chegando. Nos cruzamentos de trânsito nem motoristas nem pedestres esperam o sinal abrir; atravessam no vermelho, com pressa, como se além do sinal ficasse a terra prometida. Os blogs e sites da internet anunciam em dez minutos os fatos que só deveríamos saber nos jornais da manhã seguinte e a medicina trata hoje a doença que vamos ter daqui a dez anos.    

Numa canção de muito tempo atrás chamada Ternura Antiga, Dolores Duran compôs estes versos: “Tua distância tão amiga / Esta ternura tão antiga / E o desencanto de esperar...” Mas vejo nesta canção que o desencanto não se confirma, pois se percebe que esse tempo de espera tem um manso, resignado encantamento. Tanto que na sequência a autora se redime confessando:  “Sim, eu não te amo porque quero / Ai, se eu pudesse esqueceria / Vivo e vivo só porque te espero...”

Mas o mundo passou a cobiçar as pessoas proativas, aquelas que não esperam mais, as que têm atitude e fazem acontecer.  Abandonaram pelo caminho o nosso velho conceito segundo o qual “quem espera sempre alcança” e assumiram no lugar o modismo do “quem sabe faz a hora”. E a humanidade, sem poder mais esperar, saiu à caça da galinha dos ovos de ouro, para arrancar-lhe do ventre todos os ovos de uma vez só, sem saber que cada ovo se formava a seu tempo, dia após dia. Na ansiedade pelos acontecimentos laçamos o futuro e o trazemos aos berros até os nossos pés. Hoje sinto certa inveja desses pescadores solitários que vejo no barranco de uma lagoa na beira da estrada, espreitando pacientemente, horas a fio, que uma minúscula tilápia venha morder o anzol. É reconfortante vê-lo ali nessa espera abnegada, em harmonia com o tempo que vai passando devagar.

Mas ouço esse sabiá cantando numa madrugada de julho, atestando que a Natureza também apressou seu ciclo. Deve ser a geração Y deles que quer revolucionar os costumes da espécie.  Eu era feliz esperando setembro, assim como a torcida do Corinthians era feliz esperando a taça da Libertadores, mas esse passarinho quebrou o encanto. No bico desta ave veio uma mensagem antecipada de primavera e as madrugadas amenas e sinfônicas que eu via ainda distantes chegaram mais cedo, deformadas entre o frio e a chuva, deixando no ar esse claro enigma de que vivemos fora do tempo. O sabiá cantando em julho me deixou cismado. Ano que vem devo esperá-lo em maio? 

 Angelo Humberto Anccilotto (jul/2012)