O CUSTO DA VIDA

Há uma convicção no país de que existe emprego para todos; todos podem trabalhar. Então, a mulher que mora em Itaquera, levanta bem cedo e vem para o centro da cidade num dos primeiros subúrbios que começam a trazer gente. Ela trabalha numa firma terceirizada de limpeza e vem limpar o chão e as paredes das salas dos escritórios, aspirar o pó do carpete, tirar a fuligem das vidraças, lustrar as mesas, recolher o lixo. E como as escolas não abrem e nem as creches funcionam aos sábados, ela traz o filho de seis anos consigo.  E como não há o que as crianças fazerem entre adultos munidos de escovas, baldes e panos, ele se entretém num joguinho qualquer de um aparelho portátil que funciona a pilha.

Ao meio-dia a mulher está liberada do serviço e vai tomar um ônibus no centro da cidade e voltar para Itaquera. Mas antes passa na farmácia puxando o menino pelo braço, e o menino pára no corredor enquanto a mãe vai ao balcão levando a receita que entrega ao moço que vende remédios. Como há grande infidelidade de gêneros no comércio atualmente, os supermercados vendem agasalhos esportivos e as farmácias vendem brinquedos. O menino fica parado olhando um boneco de plástico num display sobre os caixas. O boneco é dessas réplicas de personagem de cinema que ganham movimento quando colocam uma bateria.

A mãe apanha o remédio no balcão passa pelo menino e o chama para junto de si. Está com pressa, vai pagar o remédio e voltar correndo para o ponto de ônibus, mas o menino dá dois passos olhando o brinquedo, sem coragem de pedir que a mãe o compre. Se não pede com a boca, seus olhos já o pediram, a mãe sabe disso. Ela olha o preço na etiqueta pregada na embalagem: um pouco mais de noventa reais. A mãe devolve o brinquedo no display: No seu aniversário eu compro, ela fala com carinho. Compra mesmo?, indaga o menino surpreso.  Sim, eu compro. Vou trabalhar todos os sábados este mês e com o dinheiro das horas extras, eu compro. Paga o remédio e sai. Um senhor se vira para mim e comenta: Que dó! Se eu tivesse noventa reais eu comprava esse brinquedo para ele.

Não sei quando será o aniversário do menino, nem quantos sábados a mulher terá de trabalhar até que tenha o dinheiro para o brinquedo. Achei bonita a compaixão do homem pela criança, mas entendo que ele não tinha o direito de realizar aquela compra a título de caridade. Vivemos um tempo de razoável fartura e gastos exagerados, e as crianças ganham brinquedos com facilidade. Pais ausentes redimem suas culpas comprando brinquedos para os filhos. Quando não são os pais, são os avós, os tios, os padrinhos. As crianças de hoje se fartam de presentes sem que cheguem a sofrer por eles.

Aquele menino, ao contrário, vai esperar meses, vai desejar aquele brinquedo a cada minuto. Vai contar para os coleguinhas que a mãe vai lhe comprar uma miniatura de super herói no aniversário. O menino vai confiar na promessa da mãe e será obediente nesse tempo, e vez por outra sofrerá uma angústia terrível ouvindo a mãe comentar com alguém que está apertada de dinheiro; ele pensará em desistir do brinquedo. A mãe por sua vez acordará cada dia mais cedo para não perder hora no trabalho e não sofrer desconto no salário. E assim mãe e filho serão cúmplices do mesmo sonho.

Penso que não seria justo que um parente ou uma pessoa qualquer, de melhor posse financeira, viesse abreviar essa espera antecipando a compra do brinquedo. Aquele brilho de esperança que o menino levou nos olhos quando saiu da farmácia e aquele valor subjetivo do objeto desejado que ele calculou no coração, equivalente à soma dos dias de espera com as muitas viagens que ainda fará de Itaquera ao centro da cidade, desapareceriam diante da conquista mágica e rápida proporcionada por outra pessoa. Na angústia dos dias, entre o medo de não conseguir e a expectativa de realizar o sonho, esse menino forjará um homem com a capacidade de estimar as coisas que deseja. E ainda que não seja um bom aluno que mais tarde saiba calcular com precisão o custo de vida, saberá com exatidão o quanto custa a vida.

 Angelo Humberto Anccilotto (Jun/2012)