O NOME DA ÍNDIA

Vamos partir do pressuposto de que a verdade absoluta não existe e que por causa disso tudo que aprendemos nunca é cem por cento fiel aos acontecimentos. O relato que temos hoje de fatos distantes no tempo são versões sustentadas por historiadores. A credibilidade das versões depende da aderência ao contexto da época e da coerência dos acontecimentos subsequentes. Um detetive, por exemplo, tem mais chance de descobrir o criminoso seguindo seus passos depois do crime do que avaliando seu comportamento anterior à ele. Portanto, se queres manter o teu passado em segredo, cuida bem do teu presente.

Mas vamos ao que interessa. Nasci - modéstia à parte, como diria o Rubem Braga - em Guaraçai, e muita gente ainda hoje se pergunta de onde veio esse nome. Existem várias versões; ainda na edição recente da Folha de Guaraçai por ocasião do aniversário da cidade o professor Jayro Matheus de Moraes discorreu sobre possíveis procedências do batismo, mas não há um arremate firme e a conclusão está franqueada à capacidade de cada um encontrar aderência e coerência nos fatos. Há indicativos de plantas nativas da região que levavam esse nome. Fala-se também em lobos guarás, comuns na época em que o povoado começou a se formar e que guará derivaria para Guaraçai. Não se descarta tais possibilidades, são versões que merecem crédito.

Recentemente o Laboratório Catarinense lançou uma bebida energética à base de guaraná e açaí e registrou a marca com o nome de Guaraçai. Associando  o nome de duas frutas silvestres fica fácil, quero ver tirar esse do nada, ou antes, de uma inspiração qualquer do fundador da cidade. Eu conheço uma versão e acho que pouca gente sabe dela. Aprendi na escola. Não sei se as escolas ainda contam essa versão, mas era assim: O capitão João Machado teria visitado um amigo e esse amigo lia um livro e leu uma passagem em voz alta para o capitão ouvir e nesse trecho havia um personagem indígena de nome Guaraçai e esse nome teria ficado em sua memoria. Futuramente foi utilizado para batizar o povoado. É uma versão plausível como as demais.

Eu passei pela Livraria Cultura um dia desses e encontrei um disco de Cascatinha e Inhana e em numa das faixas tem a música chamada Guaraçai. Não é totalmente desconhecida, muitas pessoas da minha idade, ou mais velhas, a conhecem e até já a cantaram em alguma festividade qualquer.  Comprei o CD, mostrei-o aos meus amigos de trabalho e disse que minha cidade natal já fora tema de música caipira. E de uma das mais conceituadas duplas que o Brasil já teve. Eles acreditaram.

Ouvi a canção em casa, à noite, e ela fala da história de amor entre um jovem forasteiro e uma indiazinha de nome Guaraçai. O romance foi breve, pois o moço logo partiu levando o coração retalhado de saudade. A canção fala que depois disso o moço nunca mais esqueceu o rosto matreiro, quase selvagem, da índia e andou pelo mundo na esperança de reencontrá-la. Ocorreu-me, então, imaginar que o capitão João Machado não teria ouvido uma leitura, mas essa canção no rádio na casa do amigo, e essa música teria marcado profundamente a sua lembrança, a ponto de não mais esquecer o nome da índia.

Cascatinha e Inhana é a mesma dupla que depois gravou Beijinho Doce e Meu Primeiro Amor, mas isso foi em 1951 e nessa época nossa cidade já era um município emancipado e já tinha nome, de forma que falta aderência a essa minha versão de que o batismo se deu em função dessa música. Mas é muito bom imaginar que tenha sido essa a origem e não outra. É agradável pensar que numa tarde fria, como relata a canção, uma índia sentada na beira do caminho tenha despertado a paixão de um viajante e que essa história, de certa forma, subsiste entre nós, nas ruas, nas praças, nas matas, por onde andamos.

Alguma coisa me diz também que muitos outros viajantes já partiram lavando saudade de Guaraçai. E aqui não falo da índia, falo da minha terra.

Angelo Humberto Anccilotto (Dez/2009)