A MORTE DO GALO

Deu no noticiário da noite na televisão e os jornais repetiram a notícia na manhã seguinte: morreu um galo em Marília, no interior do Estado de São Paulo. Que raio de galo é esse cuja morte merece destaque nos jornais e na televisão? Já morei na roça, já morreram galos e galinhas no terreiro de casa, mas, que me lembre, nunca reproduzimos o acontecimento para a vizinhança. Enterrava-se ou atirava-se o cadáver para os urubus e não se falava mais no assunto. Quando muito, conjecturava-se em arrumar uma nova ave que substituísse a extinta; nada mais que isso. Mas agora leio no jornal e ouço na televisão que um galo morreu em Marília.

Não se trata de uma morte comum, como as que ocorrem diariamente nos milhares de galinheiros das casas que ainda criam galinhas por este Brasil afora. Antes de morrer o galo sofreu de febre violenta que o levou ao delírio. Não sei exatamente que espécie de delírio; talvez o galináceo tivesse cantado fora de hora ou fora do ritmo, talvez fora visto cortejando uma pomba – quem sabe? - talvez tenha voado para uma antena de televisão imaginando-se um bem-te-vi – quem pode conter o ímpeto de uma loucura, quando o louco possui duas asas? Além da febre, o galo moribundo perdeu parte das penas, o que se pode considerar vorazmente humilhante. Um galo cuja plumagem encantava as galinhas e dava inveja aos jovens frangos candidatos a rei do terreiro, agora se definha saltando em delírio no poleiro. Triste, muito triste.

Mas essa divagação é fruto da minha imaginação. A notícia, pura e simples, dava conta de que o galo morreu com febre, tendo perdido parte das penas, exatamente o sintoma da gripe do frango, que tem assustado o mundo, contaminando aves e gente no continente asiático. As autoridades municipais recolheram o corpo e o enviaram ao Instituto Adolfo Lutz para exame. Até o momento não sei dos resultados. Discute-se até agora um possível contato do galo com aves migratórias, vindas do hemisfério norte. Os lagos da região de Marília bem que podiam ter servido de oásis para os cansados marrecos da Tailândia ou do Camboja. Vinte ou trinta mil quilômetros batendo assas sobre  terra e mar, o calor do Brasil, a paisagem do interior paulista, tudo isso atraiu os marrecos para um breve recreio. Mergulhos e farras nos lagos, os marrecos viajantes deixaram no ar o vírus H5N1. O galo desavisado, de asa caída por uma franga, passeando pela relva em torno das águas, não pressentiu o perigo e contaminou-se como que castigado por sua extravagância romântica.

Especialista em ornitologia, o Sr. Johan Dalgas Frisch garante que não. A última migração de marrecos do hemisfério norte aconteceu em fevereiro, não seria o caso de só agora, oito meses depois, aparecer uma vítima desse vírus fatal. A próxima migração de pássaros que chegará ao Brasil será a das andorinhas, ainda neste mês de novembro, portanto, é improvável para o Dr. Frisch que aves infectadas de outros cantos do planeta tenham contaminado o pobre galo de Marília.   

Permanece o suspense. Será mesmo a gripe aviária a responsável pelo fim da vida do galo? Em caso positivo, como ele se contaminou se o foco da doença está acontecendo numa região tão distante daqui? Eu tenho uma teoria, mas ninguém me leva a sério. No mundo globalizado de hoje ele pode ter conhecido uma galinha tailandesa pela internet e depois de tanto arrastar a assa para ela resolveu visitá-la. Voar sobre o Oceano Atlântico até alcançar a África, cruzar o Oriente Médio, a Arábia e a Índia até chegar à Tailândia, isso ele não fez, pois os galos não são dados a voos maiores que dez metros, mas quem pode garantir que não fugiu do sítio onde morava dentro de algum caminhão que ia para o porto de Santos embarcar soja ou café?  O comércio entre o Brasil e o Sul da Ásia está bastante aquecido então ele pulou para dentro de um navio e foi cantar em outra freguesia. Voltou de lá contaminado, o pobre coitado. Será que seus donos não lhe notaram a ausência durante um certo período?

Para o caso da hipótese de galo apaixonado falhar, e certamente falhará por não me darem crédito, fica indefinida a causa mortis, registrando-se apenas que foi uma morte honrosa, digna de ser divulgada nos jornais. Mas ainda desconfio que o poeta tinha razão: “Quem lhe sabe da tensa fúria / Do sagrado ímpeto de voo?”

Nobre animal, esse galo         

 Angelo Humberto Anccilotto (Nov/2005)