A MOTOQUEIRA

Já me alertaram que o certo é dizer motociclista e que em algumas regiões do Brasil motoqueiro é uma denominação menor, que não representa fielmente os bravos pilotos que cruzam estradas sobre duas rodas. Sei disso e no corpo desta crônica até tentarei chamá-la de motociclista, mas o título fica assim mesmo. Ela era graciosa, era destemida, era veloz. Era bem mais uma motoqueira do que uma motociclista.

Estava sozinha, a moto devia ser uma Honda de 1.000 cc e passou por mim pela faixa esquerda da Marechal Rondon, um pouco depois de Lins. E como ela olhasse para o carro e deixasse no rosto um leve sorriso ilustrado para este motorista solitário, acelerei e resolvi acompanhá-la. Ela numa faixa eu na outra. Por uns dez quilômetros seguimos lado a lado, a estrada estava deserta, nenhum veículo se aproximou para nos tirar o paralelismo.

Ela não usa jaqueta, apenas a bota era típica desses viajantes. Blusa leve, agitada pelo vento frontal, calça jeans e capacete. Se dissesse que conversamos, mentiria. A 120 km/h o som de nossas vozes se perderia na estrada. As palavras seriam carregadas pelo vento, como são, aliás, carregadas quase todas as palavras que dizemos neste mundo. Então, o que houve foram apenas esses dez quilômetros de viagem emparelhada, que durou entre cinco ou seis minutos e cuja graça era essa sensação de companhia que um proporcionava ao outro como velhos conhecidos de estrada.  

Os motociclistas têm lá seus truques para fugir da fiscalização das estradas e não raro imprimem velocidade além do limite estabelecido. Era o que estava acontecendo. Sou, no entanto, um exímio apreciador das leis de trânsito e os 120 km/h na Marechal Rondon era uma transgressão sujeita a sanções. Desacelerei. Ela talvez entendesse que eu desistira de sua companhia acelerou ainda mais forte. Sumiu.

Em Bauru, fiz parada no posto Alameda me dirigindo primeiramente à bomba de combustível para reabastecer. Em outra bomba, lá na frente, a mesma moto já estava reabastecida e a moça afivelava a alça do capacete sob o pescoço. Virou-se um instante para atrás, me viu, senti que tinha intenção de dizer alguma coisa, mas deu ignição, acelerou e partiu. Entrei na lanchonete para tomar um café e isso me custou vinte minutos.  A julgar pela velocidade da moto a moça devia ter estabelecido uma vantagem de quarenta ou cinquenta quilômetros de estrada sobre mim.

Não sou homem de desejar mal a ninguém, mas confesso que pensei com certa alegria na possibilidade da moto furar um pneu e a moça estacionar no acostamento para pedir ajuda. Eu seria o herói que levaria o pneu furado à borracharia e o traria de volta pronto para rodar de novo. A moça, então, teria para mim uma dívida de gratidão. Livrei-me desse pensamento mesquinho colocando música no carro. Em Botucatu, depois que estrada parou de fazer curvas, avistei a trezentos metros a conhecida silhueta do conjunto moto-moça. Viajava em velocidade lenta. Alcancei-a e só então lembrei-me de ler a placa da motocicleta. Era de Itu.

A moça fez-me um leve aceno, seguiu pela Marechal Rondon enquanto eu migrava rumo à Castelo Branco. Pensando nisso agora, me dou conta de que se a encontrasse em qualquer lugar deste mundo não a reconheceria. Pode ser que houvesse prendido os cabelos sob o capacete, mas não pude saber se eram compridos ou curtos. Seus olhos poderiam ser de qualquer cor, azuis, verdes, pretos, castanhos, mas o capacete não me deixou perceber direito. Se tem nariz fino e delicado ou achatado, também não sei. Se tem queixo pontiagudo ou arredondado é mistério que não vou descobrir. Enfim, fiz esta crônica levado pelo encanto de uma moça viajando sozinha numa motocicleta, livre e anônima na estrada, tão livre e tão anônima sem deixar ao menos seu rosto para as minhas lembranças.    

Angelo Humberto Anccilotto (Fev/2015)