SORVETE NAPOLITANO

Acontecia às vezes de a gente sair da fazenda numa turma de quatro ou cinco rapazes para ir ver filme na cidade no sábado à noite e chegando lá o filme ser proibido para menores de 18 anos. Tínhamos entre 16 e 17 anos e naquele tempo quando o filme era proibido, era PRO-I-BI-DO mesmo, com todas as sílabas. Ainda não existiam aquelas expressões como: “Espera o pessoal entar que eu vou ver o que posso fazer...” Um policial se perfilava ao lado da porta do cinema e fazia o filtro. E quem tinha peito de enfrentar um policial? Dona Sayde e seu Nagib na bilheteria, eles mesmos tratavam de expulsar os pirralhos que tentavam se passar por gente grande. 

O que fazer na noite de sábado então, quando as portas do cinema se fechavam para nós? Jogar snooker? Seria uma opção se lá a polícia também não fizesse ronda e retirasse da sala aqueles que ainda não tinham carteira de identidade, porque carteira de identidade só se tirava aos 18 anos.  Existia uma terceira opção, mais proibida do que as duas primeiras, mas lá a polícia que já fazia marcação cerrada no cinema do Seu Nagib e no snooker do seu Natal, lá pelos fins da Vila Operária é que ela não dava trégua mesmo.

Então, quatro ou cinco jovens, ainda sem idade suficiente para conquistar a liberdade e realizar seus desejos, cheios de energia e vontade de viver, não tinham outra coisa a fazer senão passar no bar do Expedito e comprar um tijolo de sorvete cada um. Os tijolos de sorvete eram uma embalagem de papel no formato de uma caixinha retangular com o sorvete dentro envolvido num outro papel, se não me engano de seda, ou papel manteiga. Não me recordo como se media a quantidade, se por volume ou por peso, mais era qualquer coisa como um tijolo de meio quilo ou de meio litro que a gente comprava e voltava pra casa. Quando chegávamos na estrada de ferro, sentávamos nos trilhos e logo surgia do bolso de um de nós um canivete que servia para cortar os tijolos no meio, e trocávamos entre nós uma metade por outra, para não chupar meio quilo e sorvete do mesmo sabor. Descobrimos depois que os sorvetes napolitanos tinham três sabores: morango, chocolate e baunilha e então passamos a comprar preferentemente sorvete napolitano. Era essa toda a farra de um sábado a noite de quatro ou cinco jovens, ainda adolescentes e ainda sofrendo a exclusão do mundo dos homens. 

Lembro que certa vez passou alguém por nós e perguntou se estávamos esperando o trem. Na hora ninguém respondeu nada e só rimos da pergunta do homem.  A gente nunca tem a resposta certa para dizer na hora, mas hoje sabemos que esperávamos outra espécie de trem, que não viesse apitando nem galopando sobre os trilhos, mas um trem invisível, tão veloz quanto o outro, que nos conduzisse a maioridade, a um reino encantado, onde todas as portas estariam abertas convidando-nos para entrar. Sim, era isso, e por dois ou três anos esses quatro ou cinco rapazes comportados não fizeram outra coisa a não ser esperar pela vida de adulto, sentados nos trilhos da estrada de ferro. E enquanto ela não chegava, tornávamos essa espera mais doce à base de sorvete napolitano, às vezes sonhando com a Vera Fisher ou com a Adriana Prieto, em seus trajes minúsculos, que a gente via no cartaz do cinema onde a  polícia não nos deixava entrar. 

Angelo Humberto Anccilotto (Fev/2012)