MAGGIE MacNEAL

Houve um tempo na vida de todos nós brasileiros que para ouvir música a gente ligava o rádio. Sim, sou dessa geração que ligava o rádio à noite ou nas tarde de sábado para se distrair um pouco. Era pelas ondas curtas das rádios Tupy ou Nacional, Difusora, Atalaya ou Clube de Curitiba que nos chegavam aos ouvidos algumas canções que aliviavam nosso tédio ou nos faziam sonhar janela do quarto a fora.

Então aconteceu que uma canção internacional fez muito sucesso no Brasil, lá por volta de 1976. Ouvi tanto essa canção no rádio que decorei seu título: “When you’re gone”. Eu não tinha a mínima ideia do que queria dizer When you’re gone, mas me encantava com a voz da cantora. Era uma das vozes mais lindas e acabei gravando na memória também seu nome: Maggie MacNeal. Os anos passaram, os hit parades (lembram dessa expressão?) mudaram, os sucessos musicais de antigamente se perderam no tempo e nunca mais ouvi When you’re gone.

Não que eu não quisesse. Por muito tempo procurei essa canção. Agora que as produtoras musicais andam remasterizando antigas gravações e fazendo seleções flash backs, me enchi de esperança. Entrava nas lojas, procurava nas seleções internacionais, olhava, buscava, desejava encontrar, mas não conseguia. Acho que nunca mais tornarei a ouví-la pensava eu, já duvidando que esta canção existira um dia. Geralmente uma música antiga permanece em nossa memoria porque está relacionada com um momento de nossa vida. Ouvir a música novamente é como dar uma espiada no passado.

Eu nunca tinha visto o rosto de Maggie MacNeal. Ela até andou pelo Brasil naquela época, cantou no Globo de Ouro, mas naquele tempo eu era um aplicado aluno de Contabilidade do Colégio Comercial de Guaraçai, como iria ter tempo para ver televisão? Desse modo eu tinha duas missões a realizar: encontrar um CD com a música e descobrir o rosto da cantora.

Todas as investidas que fazia nas lojas resultavam em vão. Encontrava Peter Frampton, The Stylistics, Alice Cooper, Olivia Newton John, mas Maggie MacNeal jamais. Mas como quem procura acha, certo dia apanhei uma dessas seleções numa loja e vi a música na quarta faixa do CD. Paguei R$ 12,99 pelo disco e saí feliz da vida. Coloquei para tocar em casa, matei a saudade, mas permaneceu a curiosidade de conhecer o rosto de Maggie MacNeal.

Navegando na internet tempos depois lembrei-me de pesquisá-la no Google e o Google me deu dezenas de páginas com seu nome e com o título da música “When you’re gone. Num endereço do Youtube havia um clip e finalmente pude ver seu rosto, e ainda por cima cantando a mesma canção que eu tanto procurei. No Wickpedia encontrei outras informações reduzidas em apenas duas linhas: “ Maggie MacNeal, cantora de origem holandesa, que fez sucesso nos anos 1970, cantando na língua inglesa.” E informava seu nome verdadeiro: Sjoukje van't Spijker.

Eu nunca a imaginei uma holandesa, e isso me fez prosseguir nas descobertas. Em outro site, entrei na galeria de fotos e vi em segundos numa sequência que partia de 1972 até os dias atuais, uma jovem lourinha de 22 anos, de olhos azuis, se transformar numa senhora sexagenária. No alto da página um link para contato. O texto e o menu estavam em holandês, língua que é um meio termo  entre o inglês e o alemão. Mesmo sem saber o que estava lendo, não hesitei em remeter uma mensagem. Com um inglês sofrível, formulei duas frases e enviei dizendo o quanto gostava de ouvi-la cantando. A essa altura já havia descoberto outros clippings, inclusive canções na língua holandesa, gravados nos canais de Amsterdã. Coisa bonita de se ver.

Alguns dias depois veio uma resposta à minha mensagem. Não era dela, mas do articulador da página na internet e ele me pedia ajuda para localizar artigos e matérias que a envolvesse em turnês pelo mundo. Disse que ela havia estado no Brasil em julho de 1976 e que a revista Fatos & Fotos fizera toda a cobertura dos seus shows. O que ele queria era que localizasse a revista e a enviasse para Amsterdã.  Respondi a ele que seria uma missão difícil mas prazerosa, e sem garantia de sucesso.

Descobri depois que neste mesmo site os fãs do mundo todo deixavam mensagens para ela, com possibilidade de resposta. Gravei minha mensagem lá e sonhei com o retorno. Mas com o passar dos dias, fui absorvido pelo cotidiano miúdo e já nem lembrava mais disso, quando ontem, ao abrir a caixa de e-mail, e descartando às pressas os spans, percebi, antes de deletar, o nome macneal no endereço de uma delas e abortei a deleção. Enquanto o yahoo dava voltas para abrir a mensagem eu ia imaginando uma resposta de 40 ou 50 linhas em que ela me contava a sua história e me dizia como estava feliz por receber notícias minhas e que quando  esteve no Brasil até pensou em ir a Guaraçai só para me ver, mas ninguém soube explicar-lhe como ela chegava lá. Eu sou assim, uma cabeça a serviço da imaginação dentro de uma carcaça de sonhos.

Mas sua mensagem era curta e direta: “Dear Angelo, thanks for your nice e-mail. I love Brazil and all the brazilian people.”  Foram só essas palavras: obrigada pelo seu e-mail. Eu amo o Brasil e todo o povo brasileiro. Mas isso já me deixa orgulhoso. O Palmeiras acaba de ser, brilhantemente, campeão paulista este ano e a Maggie MacNeal me envia uma mensagem de duas linhas. Que mais eu posso querer da vida?

Angelo Humberto Anccilotto (Mai/2008)

Nota: Tempos depois localizei um exemplar da revista Fatos & Fotos, em Florianóplis, e o remeti para Amsterdã para o trabalho do webmaster, que me mandou em troca uma foto autografada da cantora.

when you're gonne maggie macneal