ELA

Coisa mais natural no encontro de pessoas que não se veem há muito tempo é buscar  notícias de conhecidos comuns. E fulano? E sicrano? E aquele que morava lá... como era mesmo o nome dele? Assim aconteceu no dia 8 de setembro, no encontro de guaraçaienses distantes. Juntávamo-nos num grupinho de gente e logo surgiam as indagações, com carinhoso desejo de descobrir o paradeiro daqueles “sumidos”, que não compareceram ao encontro.

Em conversa com um desses reencontrados durante o almoço contabilizamos vários amigos desaparecidos, e com alegria trocávamos informação. Cada um repassava ao outro o que sabia sobre eles e ríamos com certa satisfação ao saber como estão e como vivem essas pessoas que nunca mais vimos. Ríamos ainda mais quando sabíamos que andam fazendo coisas muito diferentes daquilo que sempre sonharam na vida.

Assim ia a tarde naquele encantado momento de redescobertas até que, rápida e frontal como a bala de um duelo, o outro dispara a inevitável pergunta: E “ela”?

Respondo que nunca mais a vi. Nesses trinta anos que estou fora e tendo deixado de acompanhar pormenorizadamente a vida da cidade, só recebi pequenas e vagas notícias. Digo que lá pelos anos 1980 soube que ela andava por São Paulo, mas não cheguei a vê-la. Falo isso e em seguida me retifico dizendo que certa vez, há mais de vinte anos, tive a impressão de vê-la dentro de um carro nas ruas de Guaraçai.  Nunca tive certeza se era realmente ela ou se fora meu pensamento que projetara o seu rosto noutra pessoa. Mas admiti para mim mesmo que seria ela e essa imagem fugaz, com o carro virando rapidamente na esquina, como se entrasse numa dobra da Via Láctea, levando-a para sempre deste planeta, foi a última recordação que ficou.  

Essa conversa coloca um silêncio entre nós  e sua evocação nos faz, de súbito, sentir sua presença, como se ela estivesse ali sentada conosco à mesa, e esticasse o braço para apanhar a coca-cola, combinando esse gesto com o sorriso sempre alegre, com seu rosto leve e seus olhinhos negros brilhantes. Nenhum dos dois sabe quão intensamente o outro viveu essa amizade juvenil ao seu lado, mas resistimos sem esforço a tentação de fazer perguntas. Hoje desfrutamos de uma idade confortável e já não lutamos contra as marés montantes do passado.

Ainda que desejássemos muito revê-la, esse silêncio que abrimos em sua memória nos faz concordar tacitamente que não faz sentido encontrá-la hoje. Dentro de nós ela permanece como um encantamento e essa beleza era-nos ao mesmo tempo um bem e um mal, que nos aproximava e nos afastava dela, porque éramos muito jovens e não sabíamos lidar com aquele deslumbramento.  Reencontrá-la agora seria destruir com um martelo o cristal que protege essa lembrança tão cuidadosamente guardada ao longo dos anos.

Pedimos outra cerveja e bebemos em memória do tempo que passou.

 Angelo Humberto Anccilotto (Set/2007)