HISTÓRIA DE DOIS BURRINHOS

A vida não é uma linha reta. Nessa aventura terrena não há um mapa cartesiano ligando os pontos por onde nossos pés devam passar. Um dia desses li certo provérbio ou sabedoria popular, não sei bem onde enquadrar a frase, que dizia assim: “Viver é desenhar sem borracha.” De fato, uma vez vividos nossos momentos, não há mais como apagá-los. Não se faz novo desenho sobre a vida que já estampamos no mundo. Feio ou bonito, o que desenhamos com a nossa biografia permanecerá para sempre na galeria de nossas artes.

Segue-se sempre em frente, é verdade, mas o traçado deixado pelos nossos rastros nunca será uma linha muito lógica. A linha da vida é sinuosa. Dizem alguns estudiosos que os célebres versos de Fernando Pessoa: Navegar é preciso / Viver não é preciso, trata exatamente disto. Enquanto para singrar os mares segue-se uma carta de navegação e guia-se a nau pelo cruzamento preciso dos graus de longitude e latitude, para guiar o nosso corpo e a nossa alma sobre a terra não há abscissas e ordenadas que aprumem a quilha de nossos sonhos. Logo, viver é navegar sem precisão, sem rumo.

Enquanto abstraio-me nesses pensamentos, há gente sofrendo neste mundo. E há gente sorrindo também nesse palco desigual, transido de dores e alegrias. Enquanto medito neste texto há gente vivendo seu drama, amargurada, em depressão e há gente cantando bolero no chuveiro ou assobiando distraidamente na janela. Tudo é uma questão de momentos.

Existem muitas estórias, reais ou imaginárias, que podem ilustrar com emoção esse tema que abordo. E entre as que me ocorrem, a mais pura me parece essa dos dois burrinhos que li num livro infantil, há quase meio século atrás. Iam dois burrinhos pela estrada a caminho da cidade e cada um deles levava sua carga. Quem decide o peso de nossos fardos não o faz com imediata justiça, por isso os pesos que carregamos são tão desiguais. Assim também o dono dos burros proveu-os com tamanha desigualdade, lançando ao lombo de um dois sacos de açúcar e no lombo do outro dois sacos de algodão.

No começo da estrada o burro carregador de açúcar tinha lá suas razões para amaldiçoar a vida, quase sucumbindo sob o peso de sua carga, enquanto o burro carregador do algodão fazia suas estripulias, trotando e rindo do passo lento do colega: “Vamos, moleza!” O animal sobrecarregado, no entanto, buscava nas entranhas animálculas a força suplementar que necessitava para a caminhada.

Eis então um exemplo de sabedoria vindo de um burro. A vida não é reta como já foi dito antes. A vida vem em ondas – alguém já disse isso, logo não há mal que sempre dure nem há bem que não se acabe. Parece que o burro sabia disso e se não soubesse, acreditou que as ondas que formam a vida podem esconder possíveis papéis invertidos. O bem de agora pode ser o mal de amanhã e o mal de hoje pode ser nosso bem no futuro. Se o burro sabia disso, não sei; nós homens inteligentes é que nunca pensamos nessas coisas. O mal nos parece sempre interminável como se uma terrível injustiça perseguisse eternamente os nossos passos. As ondas da vida que convertem o mal em bem passam despercebidas a meio palmo do nosso nariz. A nossa predisposição para as lamentações é patologia que lota as clinicas de autoajuda mais que qualquer ferimento físico. Não bastassem as forças internas que temos para reverter certas situações, ainda podemos contar com a força ocasional da própria vida, que tudo modifica ao longo do tempo. Nada é definitivo no mundo, nem o peso do açúcar, nem a leveza do algodão, mas vivemos ignorando essas sabedorias caseiras.

Costumo dizer para mim mesmo, em algum discurso mental que elaboro, que uma parte de nossa vida depende de planejamento, mas outra parte fica ao acaso. Planeja-se a carreira profissional, algumas conquistas materiais, um lugar para morar, mas a mulher que conhecemos sentada num banco de estação de trem numa tarde de chuva não é obra de nenhum cálculo.  O planejado e o imponderado coexistem em nós, cada um com sua força e impulsionam nossa vida. A direção a que nos levam depende da intensidade de cada uma dessas forças agindo dentro de nós.

Falei tudo isso e esqueci os dois burrinhos na estrada. Um burro resignado com o peso que levava, esperando a ação do imponderado, e outro burro galopante, satisfeito, desejando que a sorte não lhe vire as costas. Mas eis que o céu começou a escurecer. Relâmpagos e trovões sacudiam os barrancos da estrada. O burro da carga maior poderia pensar: não bastasse esse peso nas costas ainda por cima essa chuva agora. Mas o burro, ao contrário, zurrou com alegria, com todas as forças do seu peito. Fez-se a chuva sobre a estrada e o açúcar derreteu. O animal dançou aos trotes comemorando a ação do acaso que lhe tirara o peso das costas. O algodão encharcou e o burro, antes sorridente, agora seguia cabisbaixo morro acima levando o peso que lhe cabia nesse caminho cheio de alternâncias.

Angelo Humberto Anccilotto (Jan/2015)