DEDO DISSIDENTE

Após a defesa, nosso goleiro repôs a bola em jogo com um chute para cima. A bola tomou a direção da meia-direita, exatamente onde eu estava. O jeito seria amortecê-la antes que batesse no chão. Se quicasse, adeus. Sábado, mês de outubro, meio-dia, na cidade de Pirassununga, num sol que até a sombra das árvores não saía debaixo delas, quem ia correr atrás de uma bola que escapasse do controle? Olhando para cima, na expectativa de amortecê-la com a banda do pé, pisei em falso numa falha d grama e caí. Caí grotescamente como caem em campo os grandes cabeças-de-bagre. Se alguém filmasse certamente eu iria para o Bola Murcha do Fantástico. Torção no tornozelo, joelho sangrando, arranhado na grama, mas a dor maior estava no dedinho da mão esquerda. Na queda, levei a mão para apoiar, o dedinho emborcou e doía como se estivesse arrebentado.

Fim de jogo (nove a um para os adversários anfitriões), churrasco de confraternização e o dedinho roxo, quase preto, e inchado, doía que nem dava vontade de comer. Quebrou, é melhor ir ao médico – diziam os que viam. Hospital? Só se o churrasco fosse suspenso e continuasse depois que eu voltasse. Imagine lá pelas tantas alguém dá pela minha falta:

- Cadê o Ângelo?

- Foi pro hospital.

- O que aconteceu?

- Machucou o dedo.

 - Ô coitado!

O coitado no hospital e o freezer esvaziando. Com muita solidariedade dividiriam entre eles a parte que me cabia naquele latifúndio gelado.

Aguentei firme até a noite. No hotel o dedo latejava, esquentava, esfriava, formigava e não me deixava dormir. Eu mexia para ver se o nervo respondia. Não parecia quebrado, mas doía que era uma coisa. Tanto que eu nem sentia o tornozelo, também torcido na mesma queda. No domingo de manhã voltei para São Paulo e antes de ir para casa peregrinei á procura de uma clinica de ortopedia. Nenhuma delas estava em funcionamento. Acabei no pronto socorro de um hospital famoso. Senha para preencher a ficha na recepção, senha para o atendimento, senha para a radiografia, senha para o diagnóstico e três horas depois eu estava liberado. Não quebrou, não – disse-me um médico residente que dava plantão naquele fim de semana. Toma Lisador para tirar a dor e coloca gelo para desinchar, ele prescreveu.

Com as providências recomendadas, a dor passou e o inchaço diminuiu, e ficou por isso mesmo. Mas formou um calombo na junta do meio. Cerca de vinte dias depois, ao pegar uma lata de tinta com a mão esquerda o dedinho se recusou a fechar como os demais para agarrar a alça. Forcei, mas ele não vinha. Observei e vi que estava torto. Tentei convencê-lo da importância do trabalho em equipe para ajudar a carregar a lata de tinta para a garagem, mas ele não deu o braço a torcer, permaneceu esticado enquanto os outros se curvavam em torno da alça. Melhor não insistir, fazer o trabalho só com os outros quatro. Depois me acerto com ele, pensei. Não há de ser nada. Conheço gente que nem tem  esse dedo e chegou aonde chegou.

Não adiantou, o dedo mindinho da minha mão esquerda não é mais meu aliado. Posiciona-se contrariamente às causas comuns do corpo que o sustenta e recusa-se a qualquer empenho de união. Seus irmãos agarram o trabalho aduncamente firmes, até com esforço suplementar  para suprir a falta que ele faz, mas ele mantém-se estático sempre puxando os tendões para o lado contrário. Meu dedinho é um membro dissidente que não compartilha mais dos movimentos de seus companheiros da mão esquerda. Isolou-se.

Comecei a fisioterapia, mas o fisioterapeuta alertou que ia demorar para sarar. O nervo estava dormente e mal posicionado. Seria preciso reestimulá-lo, até que recuperasse os movimentos. Submeti-me a monótonas e doloridas seções de tratamento, o que me fez sentir saudade da Dona Maria Bugra, antiga vizinha lá de Guaraçai. Com três dias benzimento ela teria dado jeito neste dedo na mesma semana. Mas ela já deixou o nosso mundo. Confio na arte médica, mas reconheço que ela me teria sido de mais valia do que este estagiário de medicina que ficou meia hora examinando a radiografia e deixou meu dedo entortar. Ela certamente ao segurar a minha mão teria dito que eu fosse logo tratar de por gesso, porque dedo quebrado não era  caso para reza  de benzedeira.

Depois da dificuldade da fisioterapia, me aconselharam a fazer nova radiografia. Dessa vez um especialista examinou e constatou: está quebrado. A Dona Maria Bugra, com sua sabedoria de índio, teria chegado à mesma conclusão com um único olhar.      

Angelo Humberto Anccilotto (Jan/2011)